OBRA NO SÃO FRANCISCO VIRA GOLPE ELEITOREIRO

As obras para desviar as águas do Rio São Francisco e irrigar áreas secas do Nordeste ainda nem começaram, mas os sertões de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte já foram inundados pela propaganda de dezenas de candidatos, preocupados em se firmar junto a eleitores como pais do projeto. Poucos meses após o fim de uma das piores secas que a região já sofreu neste século, os políticos desengavetaram o plano e o "vendem" a prefeitos, cabos eleitorais e lideranças do interior como a "redenção do Nordeste", a "salvação dos sertanejos". Dificilmente ele sairá do papel ainda este ano, mas mesmo assim tranformou-se na melhor bandeira para cabalar votos no miserável sertão nordestino. Até semana passada, o campeão na utilização do desvio do São Francisco como arma eleitoral era o deputado federal Marcondes Gadelha (PFL-PB), candidato à reeleição. Ele mandou imprimir e distribuir milhares de folhetos, com sua foto e o slogan "A fé transpõe montanhas", além de uma carta "aos prezados amigos" em que explica as razões pelas quais assumiu o projeto. O ex-governador Ronaldo Cunha Lima (candidato ao Senado, pelo PMDB), defende a transposição em todo ato público. Os deputados estaduais Arnóbio Viana e Gilvan Freire (fiéis aliados de Cunha Lima) fizeram milhares de cópias de seus discursos na tribuna, em defesa da transposição, e os espalharam pelo sertão paraibano. A iniciativa de Gadelha, porém, foi a que gerou maior reação. A bióloga Paulo Francinetti, presidente da Associação Paraibana de Amigos da Natureza (Apan), enviou cópia dos cartazes feitos por ele ao procurador da República no estado, Antônio Lins, que decidiu abrir inquérito por propaganda eleitoral irregular. A Paraíba é o estado onde a transposição está mais avançada, por que a Sudema (órgão estadual do meio ambiente) já concedeu licença para instalação de canteiros de obras. No Rio Grande do Norte, a transposição é tema dominante em qualquer palanque onde subam Henrique Eduardo Alves (candidato a federal), Carlos Eduardo Alves (estadual) e Garibaldi Alves Filho (candidato a governador). O primeiro é filho e os outros são sobrinhos do ministro da Integração Regional, Aluizio Alves, o homem que convenceu o presidente Itamar Franco a aprovar o projeto, ao custo de US$2,2 milhões. No Ceará, a bandeira é empunhada pelo PSDB, partido do ministro do Planejamento, Beni Veras, aliado de Aluizio na missão de obter recursos para o início das obras (JB).