O DESAFIO CRESCENTE DA MISÉRIA

O futuro presidente do Brasil vai governar um país miserável. Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), há 31,7 milhões de brasileiros-- população equivalente à da Argentina-- passando fome no país. Os indicadores sociais reunidos pelo governo e por organismos não- governamentais não deixam dúvidas: a cada ano cresce o número de famintos, desabrigados, analfabetos e doentes no país. O crescimento econômico de 1993, que deve se repetir este ano, não chegou aos excluídos. Ao contrário, investimentos federais em saúde, educação, saneamento e habitação são reduzidos a cada Orçamento ou aplicados inadequadamente. De 1989 a 1993, os recursos para a saúde despencaram de US$13 bilhões/ano para US$6 bilhões/ano. A mortalidade infantil no Nordeste continua crescendo e vai desafiar a próxima administração federal em alta. O futuro presidente terá de responder às pressões das entidades internacionais. O UNICEF, por exemplo, cita nominalmente o Brasil como exemplo de fracasso na educação. As pressões internas, vindas dos outros poderes da República, também serão grandes sobre o próximo governo. O descaso com o ensino de primeiro grau foi denunciado pelo Tribunal de Contas da União. São cinco milhões de crianças de sete a 14 anos fora da escola, outros cinco milhões de repetentes abandonando as aulas e menos de 20% completando a oitava série. A seguir, alguns casos da miséria crescente: Alagoas-- Um dia após o governo federal anunciar ações emergenciais para combater a mortalidade infantil no Nordeste, técnicos do UNICEF e do Ministério da Saúde detectaram no Município de Teotônio Vilela (AL) uma das mais altas taxas de mortalidade infantil do mundo. Ali, dos 392 bebês nascidos nestes primeiros seis meses do ano, 147 morreram antes de completar um ano, o que corresponde a uma taxa de 375 óbitos para cada mil nascimentos. Níger, país africano com o mais alto índice de mortalidade no mundo, registra 191 por mil. Brasília-- A falta de comida levou trabalhadores sem-terra acampados no Distrito Federal a transformarem duas cobras venenosas em pratos principais de suas refeições. O banquete ofídico aconteceu nos arredores de Brazlândia, cidade satélite de Brasília (DF). Duas jararacuçus do papo amarelo, com mais de 1,80 metro de comprimento cada uma, foram fritadas em postas, como peixes, e ajudaram a suprir a carência de proteína animal na alimentação dos lavradores. O veneno não os assusta. Minas Gerais-- Uma pequena vila de dois mil habitantes sobrevive exclusivamente do carvão. Homens e crianças maiores de 12 anos amanhecem à beira da BR-365, que liga o Triângulo Mineiro ao Sul da Bahia, esperando que um caminhoneiro pare e lhes ofereça trabalho. Divididos em grupos de cinco, os trabalhadores de Água Parada (MG) carregam esses caminhões de carvão vegetal produzido ao longo da estrada. Cada caminhão significa sete ou oito horas de trabalho e R$29 para o grupo, ou R$5,8 para cada carvoeiro. "Dá para tapear", diz Val Siqueira, 63 anos, seis filhos. Sergipe-- Roupas lavadas pelas mães dos pacientes, estendidas nas janelas pediátricas, onde crianças doentes comem com as mãos, na falta de talheres. O maior hospital de Sergipe, o Cirurgia, situado na capital Aracaju, só não fechou as portas ainda devido à ação de um grupo de voluntários que vêm conseguindo mantê-lo em funcionamento, ainda que precário. O hospital é mantido basicamente com recursos transferidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que responde por 90% dos R$700 mil que entram mensalmente em seus cofres. Mas seus diretores alegam que, além de insuficientes, as verbas sofrem constantes atrasos no repasse pelo Ministério da Saúde. O Cirurgia, que atende diariamente 1.200 pessoas de todo o estado e do Norte da Bahia, acumula hoje uma dívida de R$3,5 milhões. "O resultado é que faltam até itens básicos como algodão no pronto-socorro e leite para as crianças internadas", reclama o diretor José Telles de Mendonça (O Globo).