ARGENTINA: PERDAS INTERNACIONAIS

Conhecido como pé-frio entre os argentinos, o presidente Carlos Menem não está incomodado somente com os maus reflexos eleitorais de seu plano econômico, que tornam cada vez mais improvável o seu sonho de reeleição. Os ataques ao Brasil têm sido uma forma de transferir para o vizinho a culpa das "perdas internacionais" da Argentina. O alvo, no entanto, deveria ser outro. Os EUA, por exemplo. Do déficit comercial de US$3 bilhões registrado pela Argentina ano passado, o Brasil foi responsável por um rombo de US$1,02 bilhão, resultado da diferença entre os US$3,66 bilhões de exportações brasileiras e os US$2,63 bilhões de exportações portenhas. Metade dos US$2 bilhões de déficit com os EUA de janeiro a setembro. A situação pouco melhorou nos primeiros quatro meses deste ano, quando as exportações do Brasil chegaram a US$1,23 bilhão, contra vendas argentinas de apenas US$835 milhões. O déficit bilateral de US$396 milhões entre janeiro e abril foi maior do que os US$274 milhões do mesmo período do ano passado. É que enquanto as exportações brasileiras cresceram 17%, as da Argentina só avançaram 7,4%. O fator básico do desequilíbrio não é apenas a proximidade do parque industrial brasileiro, três vezes superior em poderio ao da Argentina. O comércio é sempre intenso entre vizinhos. Mas quando um dos vizinhos mostra o câmbio artificialmente valorizado, como está o peso argentino, fica sempre mais difícil vender e mais barato importar. O câmbio é um preço-chave nas exportações e os exportadores brasileiros, que vinham vendendo com facilidade para Buenos Aires, já estão preocupados com o congelamento por tempo indeterminado do real na paridade de 1 R$ 1 US$, sobretudo, com a decisão do Banco Central do Brasil de comprar dólar no câmbio comercial abaixo do par (JB).