MISÉRIA ATINGE MAIS AS MULHERES

Os comitês da campanha contra a fome estão descobrindo uma nova face da miséria brasileira, já verificada pelo último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): as famílias que vivem abaixo da linha da pobreza são na grande maioria chefiadas por mulheres. Um dos comitês paulistas da campanha, o do Jardim Kagohara, bairro pobre da zona sul da cidade, constatou a dimensão desse fenômeno. Das 36 famílias mais carentes cadastradas, 20 são chefiadas por mulheres. Talvez seja o sintoma mais eloqu"ente da "feminilização da pobreza", fenômeno que os estudiosos observam há alguns anos. As mulheres, como se sabe, ganham bem menos do que os homens, trabalhando em funções idênticas. Segundo dados da Fundação SEADE (Sistema Estadual de Análise de Dados), a média salarial dos homens brancos em São Paulo é de 8,1 salários-mínimos, contra 4,6 salários entre as mulheres brancas. Entre os negros, a situação é pior. Os homens negros ganham em média 4,3 salários-mínimos, contra 2,6 das mulheres. Quando o casal se separa e a mulher assume o comando da família, segue-se uma inevitável queda no padrão de vida. Entre o extrato mais pobre da população, essa mudança ganha ares de tragédia. Como a guarda dos filhos costuma ficar com a mulher, ela terá de dividir seu salário miserável com muitas bocas. Estima-se que 60% das famílias que vivem abaixo da linha de pobreza são chefiadas por mulheres. Esse modelo, no entanto, representa apenas um terço das famílias brasileiras. A "feminilização da pobreza" está longe de ser uma primazia brasileira, tampouco do Terceiro Mundo. No Canadá, as mulheres que se separam experimentam uma queda de 73% em seu nível de renda. Trata-se de um problema nacional: quatro em cada 10 matrimônios no país terminam em divórcio em poucos anos. Nos EUA, entre o grupo de trabalhadores que recebe salário-mínimo no país, 75% são mulheres. Um estudo da ONU (Organização das Nações Unidas) publicado há três anos informa que as mulheres, que constituem 51% da população, respondem por sete em cada 10 horas trabalhadas no mundo. Essa jornada não se traduz em dinheiro. As mulheres recebem apenas 10% dos salários em circulação no planeta, segundo o trabalho da ONU (JB).