Elas podem ser as "minas de pisa", hábeis em furtar mercadorias dos supermercados, ocultá-las entre as pernas e andar como se nada acontecesse. São também as "bolseiras", que enchem as bolsas de compras nas lojas e passam sem pagar pelos caixas e seguranças. Nestes momentos, são muito consideradas pelos homens que andam "trepados" (armados). No entanto, são vistas também como as "minas fatais", que usam saias curtas, decotes sedutores e provocam guerras entre os homens que disputam seus encantos. Em outras ocasiões, são as deusas protetoras, as tias intocáveis, que devem ser obedecidas cegamente. Estes são alguns dos estereótipos de mulheres do mundo do crime vistos pelos traficantes, assaltantes e ladrões estudados recentemente pela antropóloga Alba Zaluar na pesquisa "Mulher de Bandido: Crônica de uma Cidade Menos Musical". Alba é professora da Universidade de Campinas e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Estuda a marginalidade há 20 anos no Rio de Janeiro (capital) e focalizou a mulher bandida numa boca-de-fumo de um bairro da zona oeste da cidade, com 370 pessoas diretamente envolvidas no tráfico. Ela chegou à conclusão de que esta mulher "é uma figura ambígua e complexa para os homens do tráfico". Ao assumir o comando dos negócios, as mulhetes tendem a usar os mesmos estereótipos masculinos-- força, repressão, violência e armas-- porque no mundo em que vivem estes são os elementos de dominação. Dadá, uma malandra do passado, conta a antropóloga, montou uma boca lucrativa, mas passou-a adiante quando o poder das armas, em fins dos anos 70, provocou a guerra entre quadrilhas. Dadá, porém, não era santa com os homens: obrigava alguns viciados a fazerem sexo com ela caso quisessem a droga. As jovens, em geral negras, entram no crime para ajudar o namorado a pagar a droga, escondem as armas em casa, furtam dinheiro e roupas de grife para eles. Para a antropóloga, "elas gostam de bandido por causa do revólver, que representa garantia de segurança na conflituosa comunidade". A mulher verdadeira, no entanto, segundo as moradoras entrevistadas pela pesquisadora, é aquela que ajuda o bandido na hora do sufoco, arruma advogado para tirá-lo da prisão, leva comida e roupas para cadeia, e em alguns momentos, chega a traficar, roubar, matar e morrer por ele. Essa Amélia, segundo Alba, não pode permanecer no mundo doméstico das preocupações femininas e vai à luta, com ou sem armas (O ESP).