BRASIL TEM NOVA MOEDA EM CIRCULAÇÃO

Em seu oitavo plano de estabilização da economia, o Brasil amanheceu hoje com uma nova moeda em circulação: o real (R$1,00 vale CR$2.750,00). Desde as primeiras horas da madrugada, o real podia ser obtido nos saques de caixas eletrônicos. Ontem, a expectativa pela troca de moeda fez com que os bancos ficassem lotados de clientes que procuravam pagar sua últimas contas em cruzeiros reais, enquanto as calculadoras e os porta-níqueis se esgotavam no comércio. Nas ruas, os camelôs avisavam: não vão trabalhar com centavos e arrendondarão seus preços pelo valor mais alto. Nos supermercados, as etiquetas foram trocadas e algumas lojas já trazem hoje preços nas duas moedas. Ao anunciar ontem a Medida Provisória 542, que cria o real, o ministro da Fazenda, Rubens Ricúpero, deu a partida para, segundo o presidente Itamar Franco, "mudar definitivamente o rumo da história do país", trocando 30 anos de inflação "pela oportunidade de um futuro de ansiada estabilidade". As 15 mil agências bancárias do país abrem hoje para colocar R$6 bilhões em circulação. O real volta 52 anos depois de desaparecer e já enfrenta o desafio de conter remarcações de preços. Desde 1942, a inflação corroeu o poder de compra de compra da população e atingiu estratosféricos 74 quintilhões por cento. Para o mês de julho, o governo trabalha com a hipótese de uma inflação de 2%. E para o mês de agosto, a expectativa é de inflação zero. Em pronunciamento à nação, o presidente Itamar Franco disse que o Plano Real não provocará recessão. Ele pediu confiança na nova moeda e advertiu que o governo "não aceitará e nem permitirá que interesses particulares, nem sempre legítimos, se sobreponham aos superiores direitos da coletividade". O real entra hoje na economia, porém, com preços em disparada. A cesta básica na cidade de São Paulo fechou junho com alta de 61,84%, 10,09% acima da URV do mês-- a maior alta desde março de 1990, segundo pesquisa do PROCON/DIEESE. O governo, ao anunciar oficialmente as medidas do plano, acredita que com o congelamento do câmbio-- possivelmente até dezembro-- e um rígido controle sobre o volume da nova moeda em circulação conseguirá baixar a inflação e refrear os aumentos de preços na economia. Os trabalhadores começam a usar a nova moeda com uma perda do poder aquisitivo de seus salários de 9%, segundo cálculos do DIEESE. Essa perda corresponde à diferença da variação do Índice do Custo de Vida (ICV) do DIEESE e a Unidade Real de Valor (URV), no período de 1o. de março a 30 de junho, com projeção de inflação de 50% para o mês passado. Nesse período de quatro meses, o custo de vida subiu 370,42%, mas os salários só tiveram 331,49% de correção pela URV. As perdas não vão parar por aí, informa o DIEESE. Numa projeção otimista, com inflação de 3% ao mês, o salário médio de um trabalhador com data-base em 1o. de agosto, ao longo de um ano, vai estar valendo 17% menos do que vale hoje. Isso porque não haverá correção mensal, apesar da inflação. Quem mais perdeu, porém, e vai continuar perdendo mais, são os trabalhadores de menor renda. A aceleração da inflação, estimulada pelas expectativas e remarcações nesse período pré Plano Real, fez com que os produtos da cesta básica, que custavam 85,04 URVs em março, passassem a custar em junho 100 URVs, em média. O salário-mínimo, que desde março vale 64,79 URVs, perdeu 17,6% de poder aquisitivo em relação à cesta básica. Antes, o mínimo comprava 76% da cesta (31 produtos essenciais), agora, compra apenas 65% (O Globo) (JB) (FSP) (O ESP) (JC) (GM).