A maioria dos venezuelanos apóia a decisão do presidente Rafael Caldera de suspender as garantias constitucionais e impor controle de preços e câmbio. Passadas 48 horas do anúncio do governo, emissoras de tevê do país levaram ao ar entrevistas nas ruas das capitais onde a resposta unânime é de aplauso ao presidente. As poucas ressalvas são de que Caldera não deveria ter demorado tanto para reagir à profunda crise por que atravessa o país. Embalada pelas palavras de ordem do presidente, a polícia lançou uma operação de caça aos sonegadores. Reeditando o que ocorreu no Brasil durante o Plano Cruzado, surgiram vários "fiscais do Caldera" para colaborar com o Instituto de Defesa do Consumidor. Em Caracas, três gerentes de supermercado acusados de especulação foram parar em um camburão e os militares foram ovacionados. Numa sapataria, foram encontrados escondidos 80 quilos de açúcar, depois distribuídos para a população. Enquanto isso no Palácio Miraflores, o governo convocou os donos dos principais meios de comunicação e representantes do Congresso para explicar o alcance das medidas. "O governo não abusará da suspensão das garantias constitucionais", disse o presidente aos jornalistas preocupados com que as forças policiais caíam na tentação de evitar protestos populares. Ainda ontem, dois estudantes foram presos em Caracas acusados de estarem incitando manifestações. Na cidade de Mérida, um "panelaço" convocado por universitários para protestar contra o custo de vida acabou em violento confronto com a polícia. No Congresso, com exceção do Movimento ao Socialismo (MAS) e a Convergência, que apóiam o governo, a reação foi menos entusiasmada. Esta é uma ditadura de fato, afirma o deputado Claudio Fermin, que disputou as eleições presidenciais pelo partido Ação Democrática. Os social-democratas condicionaram o apoio à restituição das garantias individuais. O mesmo argumento foi apresentado pela Causa Radical. Segundo um de seus líderes, o senador Pablo Medina, a inclusão da suspensão das garantias no pacote surpreendeu a todos os parlamentares. O comandante Hugo Chaves, líder da primeira tentativa de golpe contra o ex-presidente Carlos Andrés Pérez em 1992, protestou energicamente contra as medidas de emergência do governo. "Lamento que se aplique um controle de câmbio depois que US$5 bilhões, destinados a ajudar bancos falidos, desapareceram do país. Com a suspensão das garantias constitucionais, o governo está montando um piso para arremeter-se contra as classes populares", disse o militar reformado (JB).