Precisamos reformular a propria nocao de cultura. Teremos que nos
80704 aprofundar nas relacoes entre cultura e desenvolvimento, coisa que nunca
80704 foi feita em escala mundial, se nao quisermos entrar no terceiro milenio
80704 com resistencia. Esta declaracao é de Javier Péres de Cuéllar, ex-secretário geral da Organizacao das Nacoes Unidas (1982/92), presidente da Comissao Mundial de Cultura e Desenvolvimento criada pela ONU e pela Organizacao das Nacoes Unidas para a Educacao, Ciencia e Cultura--Unesco--, ao definir desenvolvimento, nos termos atuais, como algo que "exige um suplemento de alma. Para aqueles que nada tem, ter mais continua a ser o objetivo primordial. Mas, para todos, trata-se sobretudo de viver melhor e viver melhor juntos. Consequentemente, é indispensável optar pela qualidade. Apostar na participacao, na solidariedade". Horizonte comum - Péres de Cuéllar imagina uma espécie de Plano Marshall (programa de ajuda economica dos EUA à Europa, após a 2a. Guerra Mundial) em favor da cultura e do desenvolvimento, afiancando haver meios para a adocao de tal decisao. Destaca entre eles "resolucoes que passem pela reducao dos gastos improdutivos, principalmente os gastos militares, em todos os países; uma busca de otimizacao dos gastos públicos; a destinacao de recursos maiores ao desenvolvimento humano e cultural, portanto à educacao, mas também à cultura; e o aumento da assistencia pública e uma melhor distribuicao desta assistencia". E, lembrando que o Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento Humano, publicado pelo PNUD -- Programa das Nacoes Unidas para o Desenvolvimento--, declara que, na década de 1960, os mais ricos ficaram com 70% da renda mundial e os mais pobres com 2,3%, afianca "que nao se acabará com esse abismo com uma simples injecao de capital, mas com a promocao de novos modelos de desenvolvimento combinados com novas políticas culturais, com a promocao da diversidade cultural e de uma nova dinamica cultural de transformacao social". Cuéllar declara estar convencido de que, longe de ser um simples legado, a cultura hoje ameacada é o "nosso único horizonte comum"; contesta as formas de desenvolvimento que, baseadas na expansao continua do consumo material, nao sao viáveis, dilacerando o tecido de que as culturas sao feitas, além de ameacar a biosfera e a sobrevivencia da humanidade. Relembra Carlos Fuentes, também da Unesco, para quem "todo projeto de futuro comum passa pela cultura, porque tudo pode desaparecer, menos ela". E enfatiza: "Se quisermos abrir a oportunidade do desenvolvimento sustentável humano e solidário, precisaremos modificar nossos comportamentos, radical e urgentemente. Será indispensável recriarmos um fundo comum de valores compartilhados, respeitando a identidade de cada um. Emprego, trabalho - Para Cuéllar, a revolucao tecnológica e economica questiona um dos fundamentos da sociedade industrial: o trabalho: "O crescimento, sem criacao de empregos, é uma das expressoes mais preocupantes, um fenomeno que se iniciou há quase 20 anos e que se acelera a cada ano, sendo importante reconciliar quem tem a visao com quem toma as decisoes, a visao com a previsao, o criador com o economista. Assim estaremos em condicoes de assentar as bases de um programa de trabalho para a cultura e o desenvolvimento, que permitirá completar o Programa 21, adotado no Rio de Janeiro (por ocasiao da Rio-92). A Comissao Mundial de Cultura e Desenvolvimento, que associou personalidades eminentes, criadores, intelectuais e especialistas no assunto, tem seus trabalhos financiados por contribuicoes financeiras voluntárias. Países como Noruega, Alemanha, Países Baixos, Suécia, Dinamarca, Finlandia, Costa Rica, e o PNUD contraíram, juntamente com a Unesco, compromissos de garantir parte dos US$ 5,8 milhoes do orcamento adotado pela Comissao. Espera-se que outros, alem de fundacoes, empresas privadas e organismos de assistencia ao desenvolvimento, se somem ao empreendimento comum de trabalhar pela cultura em escala mundial. Péres de Cuéllar invoca André Malraux, para quem o mundo da cultura "nao é o da imortalidade; é o da metamorfose", concluindo que, longe de ser um obstáculo à modernizacao, a cultura é a chave e o horizonte do desenvolvimento, entendido aqui como algo que reúne toda a riqueza da experiencia da humanidade. E relembra Emerson, que aconselhava: "Engata teu arado à uma estrela", concluindo: "Se a cultura se converter na estrela que orienta o desenvolvimento, se ela alcancar o primeiro escalao das prioridades de um programa nacional e internacional, teremos preservado o único patrimonio ainda intacto da humanidade: a terra virgem do futuro" (jornal Perspectiva Universitária-no.297-junho).