COLUNA DO CASTELLO. A multidao que ontem à tarde, por todos os cantos do Brasil, correu de chuteiras e de coracao verde-amarelo nas maos para a frente da televisao, e depois festejou nas ruas a vitória da selecao brasileira na Copa do Mundo, nao é a única demonstracao de uniao e solidariedade dos brasileiros, neste momento. É a mais tensa, explosiva, emocionante. A mais gostosa para desabafar, para comemorar. Mas há uma outra, silenciosa, que também converte torcedores em cidadaos, e os enche de contido prazer. Nao é acompanhada com euforia por transmissoes de televisao, como a que se viu ontem quando a selecao brasileira percorria a auto-estrada entre a concentracao e o estádio onde jogaria contra a Rússia. A imprensa até a abandonou. Sem nos darmos conta, essa multidao que se dá as maos por baixo do Brasil publico e festeiro aumenta dia a dia, e completa nesta quinta-feira um ano que comecou a se incomodar com os dramas sociais do país e passou a espalhar por todos os cantos os comites da campanha Acao da Cidadania contra a Miséria e pela Vida. Sequer o tropecao de Betinho, o sociólogo Herbert de Souza, dono da patente da campanha, na lista das benemerencias do jogo do bicho, no Rio, alterou o seu curso. Alguém pode achar que Betinho perdeu no episodio a aura de santo que ele sempre recusou. Mas a sua obra nao apenas foi preservada, como até ampliada daí em diante, o que em si já é suficiente para beatificacao. Há um ano, Betinho e Dom Mauro Morelli, bispo de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, tinham muitas dificuldades para fazer andar a campanha. Confessaram as suas angústias ao deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), que levou para uma conversa com eles, na sede da CNBB em Brasília, oito senadores e 12 deputados federais. A certa altura da conversa, o senador Almir Gabriel declarou-se muito pessimista quanto ao exito de uma campanha dessa natureza. Betinho, hemofilico, portador do vírus da Aids, comoveu a todos com uma frase: "O único que nao tem direito de ser pessimista aqui sou eu." Nasceu, ali, a Frente Parlamentar de apoio à campanha de Betinho. Ela instigou jornalistas, engajou outros parlamentares e sacudiu os homens do governo, que em seguida criaram o Conselho de Seguranca Alimentar, hoje presidido por Dom Mauro Morelli. Em um ano, a campanha Acao da Cidadania contra a Miséria e pela Vida se espalhou tanto que nao se tem controle preciso do numero de comites instalados por todo o país. Também nao se poderia controlá-los por sua própria natureza. A principal caracteristica dos comites é a espontaneidade, o trabalho voluntario, livre, independente, quase íntimo como uma doacao de caridade. Mas calcula Betinho que sao mais ou menos 3.5OO os comites, quase o mesmo número de municípios que existem no Brasil. Por trás dos movimentos dos partidos e dos candidatos no rumo da eleicao, e dos torcedores em direcao ao tetracampeonato mundial de futebol, há a mobilizacao sem alto-falantes e foguetórios desses comites para o que chamam de conferencia nacional de seguranca alimentar, a se realizar em Brasilia no dia 27 de julho. Na preparacao dessa conferencia, alguns estados, como Sao Paulo e Rio Grande do Sul, chegam a fazer reunioes de 150 comites, em que discutem projetos para enfrentar o problema da miséria. Goiás nao consegue a proeza de reunir tantos comites, mas levará para a conferencia um exemplo tocante. Um agronomo da Embrapa se perguntou, diante de criancas que cobravam pedagio para a campanha, por que ele próprio nao encontrava uma maneira de se engajar. Obteve autorizacao para usar 40 hectares de terras abandonadas da Embrapa, articulou-se com o Banco do Brasil e com empresários, arranjou sementes e tratores e tirou há pouco dali uma boa colheita de arroz e feijao para reforcar a marmita da campanha. O presidente da Embrapa anunciou que quer seguir o exemplo pelo Brasil afora. Um fazendeiro de Nova Crixás (GO), a 400 quilometros de Goiania, doou à campanha o direito de uso de 600 hectares. As histórias se repetem por todo o pais. As mais comuns sao as de construcao de padarias. A padaria é um achado da campanha: um investimento relativamente barato, que gera emprego e ainda por cima comida. O Sindicato dos Bancários de Sao Paulo acaba de fazer a doacao de duas padarias. Um comite do Morro Dona Marta, em Botafogo, no Rio, instalou uma oficina de reciclagem de papel. Uma vez por semana, uma artista plastica vai lá dar aulas de reciclagem. Isso desencadeou urna campanha de recolhimento de papel para reciclagem. Os novos produtos sao vendidos e transformados em alimento. O comite dos funcionarios do Instituto de Resseguros do Brasil está custeando educadores de rua para os filhos de catadores de papel que perambulam pela Rua Marechal Camara, no Centro do Rio. Os do Serpro montaram um curso profissionalizante de digitadores na Rocinha. Os exemplos se sucedem. Os 184 centros academicos de faculdades de Direito, que representam 150 mil estudantes, estao sendo mobilizados para participar da campanha, dando assessoria jurídica nas favelas, formando núcleos de direitos humanos, visitando os presídios ou simplesmente promovendo seminarios sobre a fome, a miseria, a violencia, o desemprego, os direitos humanos e a democratizacao do Poder Judiciário. A orientacao da campanha é uma só: "Voce faz o que acha que deve fazer." Os adventistas se engajaram na campanha no último fim de semana. Sugeriram aos 40 mil fieis reunidos durante quatro dias no Maracanazinho que levassem um quilo de qualquer genero alimentício. Foram entregues 26 toneladas de alimentos. A Autolatina vai doar esta semana um carro da marca Logus para ser rifado pela campanha. E por aí vai. A campanha ja nao é mais só do Betinho. É do Brasil, como a selecao de futebol--que, aliás, também está engajada nela. Os jogadores doaram um carro importado que ganharam de presente (JB).