Me levem daqui, pelo amor de Deus! O grito de Aluminha Raquel Facchina, 84 anos, tirou o delegado Ademar Pinheiro Brisolla do transe. Ele acabava de entrar em um verdadeiro campo de concentracao, em pleno bairro paulistano da Aclimacao, e com o insuspeito nome de Casa de Repouso Jardim Tropical. Lá, 22 idosos viviam, ou melhor, sobreviviam, em condicoes subumanas. Já na entrada da casa de três andares sentia-se um cheiro horrível, mistura de fezes, urina e comida estragada. Na cozinha, espalhavam-se pelo chao panelas sujas e roupas íntimas femininas. Uma cacarola imunda sobre o fogao aprontava a próxima refeicao: uma sopa rala de arroz. Mas o pior daquela quarta-feira 18 ainda estava por vir para o delegado. Sob a escada que leva ao primeiro andar, ele encontrou três senhoras esquálidas, protegidas do chao duro apenas por um lencol em fiapos. No andar de cima, alguns velhinhos jaziam sobre o próprio estrado da cama. Uma denúncia apresentada ao promotor Joao Estevan da Silva levou o delegado e funcionários da vigilancia sanitária a estourarem o pardieiro da Aclimacao - onde os idosos pagavam para ficar - e expôs uma das piores chagas do País. A forma como o Brasil trata ou maltrata - seus velhos, em uma verdadeira conspiracao entre familiares insensíveis e um Estado omisso. O alvará de funcionamento do asilo estava vencido desde dezembro, a administradora Sebastiana Batista Morales Pistori, 71 anos, responde a dois processos por maus-tratos contra idosos, e há um mês com as famílias. Ninguém fez nada. A Casa de Repouso pertence a Vicente Martins Júnior, dono de outro asilo em um bairro vizinho e que fugiu depois da denúncia. Sebastiana, que é analfabeta (ninguém explicou como ela podia administrar remédios aos idosos), foi presa em flagrante por maus-tratos e cárcere privado. Ela admitiu que dava pouca água aos internos para que eles nao urinassem nas camas. Uma das senhoras, Virgínia de Jesus Gomes, 88 anos, teve de ser mandada às pressas ao Hospital Sao Cristóvao. Desidratada, desnutrida, com os olhos vidrados e as costas cheias de escaras feridas que surgem nas costas quando o paciente passa muito tempo deitado. Sinal de descaso. "Eles davam pouca comida a ela, diziam que tinham um médico, mas eu nunca vi", diz Maria da Conceicao, irmã de Virgínia. De fato, o nome de um médico constava dos documentos do Jardim Tropical: Francisco Antônio Rodrigues Júnior, também foragido. Maria da Conceicao, que tem uma procuracao para receber a aposentadoria da irmã e pagou no mês passado CR$ 140 mil ao asilo, diz que visitava a irma todas as semanas, mas nunca notou nada de errado. A polícia acredita que muitos familiares passavam longos períodos sem aparecer, já que encontrou recibos de até CR$ 3,5 milhoes, adiantados. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas
80628 idosas, assegurando sua participacao na comunidade, defendendo sua
80628 dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida. Esse é o texto do Artigo 230 da Constituicão. "A violacao da lei é crime e qualquer idoso que nao tenha o amparo da sociedade pode abrir um processo", lembra o jurista e deputado federal Hélio Bicudo (PT-SP). A julgar pelo caso da Aclimacao, há muitos mais criminosos no País do que se imagina. Como definir - senao como crime - o que ocorreu com o motorista de caminhao aposentado Paschoal Capello, 77 anos? Ele sofreu um enfarto há dois anos e meio e foi internado pela família no mesmo Hospital Sao Cristóvao, de Sao Paulo, onde está Virgínia de Jesus. Depois da recuperacao, nenhum dos três filhos e seis netos aceitou responsabilizar-se por Capello, embora sua aposentadoria vá rechear mensalmente o orcamento de um dos filhos. Até hoje, seu Paschoal está no hospital e acabou sendo adotado pelos funcionários. Ele só chora - e muito - quando fala do abandono. "De vez em quando, um de meus filhos, o Paulo, vem aqui, fica um minuto e vai embora." Casos como esse nao sao raros. Segundo o diretor clínico do hospital, Joel Priori Maia, virou moda largar idosos - malinha na mao - à porta dos hospitais. "Principalmente nas vésperas de feriados prolongados", diz. A situacao de abandono nao se deve, é claro, apenas a familiares desalmados. O Estado brasileiro está completamente despreparado para enfrentar o aumento do número de idosos. Em 1986, os brasileiros com mais de 60 anos de idade absorviam 48% dos benefícios sociais do Estado. A se manter a tendência atual, eles consumirao toda a dotacao oficial de verbas em 2010. O curioso é que muitos problemas sao causados por um dado positivo: o crescimento da expectativa de vida. Em 1900, o brasileiro vivia em média 33,7 anos. Hoje, nossa esperanca de vida é de 68 anos e no ano 2020, prevê-se que ela ultrapasse os 72 anos. Isso representa gastos extras para o Estado, um drama que há décadas aflige o Primeiro Mundo. Só que o Brasil tem um sistema de previdência social de Terceiro Mundo: o governo calcula que mais de 70% dos aposentados e pensionistas tenham de se virar com um salário mínimo por mês. A ex-metalúrgica Benedita Camargo, de 83 anos, que depois de 31 anos na mesma fábrica, em Sao Paulo, ainda trabalhou 20 anos como lavadeira, equilibra-se como pode para viver com a pensao de CR$ 180 mil mensais. "O dinheiro só dá porque eu como pouco. Meu cachorro, o Preto, acaba comendo mais do que eu", brinca. A populacao brasileira, cada vez mais velha, nao conta entao com os recursos para sustentar-se e colher os frutos de uma vida mais longa. A Legiao Brasileira de Assistência (LBA), que poderia atenuar um pouco as dificuldades dos aposentados mais pobres, atendeu no ano passado apenas cerca de 266 mil dos 1 1,2 milhoes de idosos do País. O gasto médio com cada um deles foi de magérrimos CR$ 54,72, em valores atuais. "Velho rico é paparicado pelos filhos, que estao de olho na heranca", brinca o ator carioca Mário Lago, 82 anos. "Velho pobre é um estorvo", diz. Lago estrelou, na semana passada, o episódio Angu de caroco, do programa Você decide, da Rede Globo, que abordava um triangulo amoroso entre idosos. O público decidiu que Lago deveria abandonar a aventura e insistir no casamento de 60 anos. O remédio, para muitos, é arranjar um bico. O mineiro Joao Roela de Oliveira, 81 anos, recebe CR$ 2 mil no final de cada dia que passa carregando uma placa de propaganda de uma loja de equipamentos fotográficos. Ele escuta muito mal e comunica-se com dificuldade. "Nao sei quanto recebo de aposentadoria. Deve ser menos de CR$ 100 mil", diz Oliveira, que divide um pequeno cômodo com a mulher e duas enteadas, em Sao Miguel Paulista, periferia de Sao Paulo. O almoco de cada dia só está garantido porque uma mulher anônima dá dinheiro ao dono da lanchonete em frente ao ponto do plaqueiro para que ele forneca as refeicoes. Seu Joao adora filé de peixe e linguica calabresa. Há quem possa saborear refeicoes melhores, mesmo depois da aposentadoria e tenha condicoes de curtir a velhice em jardins de verdade, nao em pocilgas como o Jardim Tropical, da Aclimacao. É o caso dos cerca de 300 idosos que estao no Lar Golda Meir, mantido pela comunidade judaica de Sao Paulo. Lá trabalham 350 funcionários, que preparam seis refeicoes diárias, mantêm servicos médicos 24 horas por dia e ciceroneiam vovôs e vovós em teatros e cinemas. O clima nada tem a ver com um depósito de velhos. Uma das internas mais conhecidas é Rifka Malherman, 94 anos, que quase nao fala mas faz questao de manter a elegancia e as roupas de grife. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) funciona desde agosto um programa para idosos, com cursos que vao de datilografia e dancas de salao a seminários sobre o sexo na terceira idade. "Gostei tanto daqui que pretendo continuar estudando enquanto tiver pernas para andar", diz Olka Vieira Cunha, 70 anos, uma das duas mil alunas do programa. O Servico Social do Comércio (Sesc), de Sao Paulo, foi o pioneiro - há 30 anos - nesse tipo de atividade. Hoje, o Sesc atende mensalmente mais de 3.500 idosos, que pagam CR$ 3 mil anuais para participar de oficinas literárias e até de esportes como o basquete, com regras adaptadas a corpos envelhecidos. O Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, também está longe da imagem depressiva de um asilo. Ali estao ex-coristas e beldades do teatro rebolado, que de vez em quando ainda fazem pontinhas em pecas e shows de tevê. Dona Lucy Costa, 84 anos, nao se contenta com apresentacoes eventuais. Ela é a única moradora que ainda trabalha com regularidade. Está vivendo uma bruxinha trapalhona na peca Aladim e a Lampada maravilhosa e planeja produzir outro espetáculo em seguida. "No dia em que deixar o teatro, eu morro", diz. O retiro foi criado em 1918 e abriga 39 pessoas em casas bem cuidadas com dois quartos e varanda. Suas ruas levam o nome de artistas que colaboram com a manutencao da entidade: Nair Belo, Bibi Ferreira, Cidinha Campos e Fernando Villar. Nem esse alto astral faz com que a solidao se afaste completamente. "Eu nao existo para mais ninguém", lamenta a bailarina húngara Elizabeth (nome artístico, porque o verdadeiro é Ilionor. O sobrenome ela nao diz), que já dancou nos melhores teatros do mundo. Experiências como a do Retiro dos Artistas ou a do Lar Golda Meir infelizmente nao sao a regra e sim excecoes. O mais comum é o idoso ser atirado ao desamparo. "Sabemos que em Sao Paulo há dezenas de asilos funcionando em condicoes tao precárias como o da Aclimacao", diz Milton Rossi, funcionário da Vigilancia Sanitária. "Queremos fazer alguma coisa, mas a verdade é que nao teríamos para onde levar os intemos, uma vez que muitas vezes as famílias nem aparecem", reconhece. A paulista Aluminha Raquel Facchina, aquela que gritou quando o delegado Brisolla entrou no asilo Jardim Tropical, agora quer viver com a irmã Alda, 13 anos mais nova. Aluminha nao pode andar e a irmã, que sofre de osteoporose, alega nao poder carregá-la. E, por isso, nao a quer em casa. "Ela tem um gênio horrível, nao daria para a gente viver juntas", diz Alda. A irmã, nem bem se recuperou do trauma do pardieiro da Aclimacao, foi colocada em outra casa de repouso. Já Gladinir Soares Malaquias, atendente de enfermagem da Prefeitura de Sao Paulo, salário de CR$ 500 mil mensais, nao tem mesmo para onde levar sua tia Maria Antônia Rodrigues Silva, 85 anos. A senhora, que sofreu dois derrames cerebrais, vivia há quatro anos na Casa de Repouso Jardim Tropical. "Nao sei por que chamam aquilo de jardim, eu nunca vi uma flor por lá", diz, irônica. Ela nao reclama do asilo. "Eu gosto de ler e ouvir música. Fazia isso lá todo o tempo. A comida é que era pouca. Eu deixava sempre alguma coisa no prato e os outros vinham correndo pedir as sobras", afirma. A sobrinha de Maria Antônia nao tem condicoes de colocá-la em outra instituicao. Ela pagava CR$100 mil mensais e agora só encontra vagas disponíveis por CR$ 500 mil. Por enquanto, dona Maria Antônia vai ficando no quarto de empregada da casa de Gladinir. Esse tipo de situacao, cada vez mais comum, em que o idoso vai sendo objeto de solucoes improvisadas, apenas aumenta a sensacao de isolamento na terceira idade. "A juventude só se preocupa com ela mesma", afirma o filólogo carioca Antonio Houaiss, 78 anos. "Na Antiguidade, conviver com os velhos, símbolos da experiência, era um privilégio", conclui. "A velhice é uma maldicao da espécie", emenda a escritora Rachel de Queiroz, 83 anos. Para a psicóloga Maria das Gracas Leal, professora do curso de Gerontologia do Instituto Sedes Sapienteae, de Sao Paulo, "tudo no Brasil é feito para os jovens, inclusive a infra-estrutura urbana - ônibus, metrôs e escadarias. Nao existe nenhuma loja especializada em artigos para idosos e dificilmente você encontra, nos hospitais, um setor específico". No Rio de Janeiro, o Estado com maior porcentagem de idosos sobre a populacao total (o segundo é a Paraíba, apenas dois hospitais contam com servico de geriatria. "No total sao 235 leitos para um milhao de idosos", diz o deputado estadual Sérgio Cabral Filho (PSDB). Ele patrocina o servico SOS Idoso que, desde 1991, já recebeu 3.487 denúncias: 47,5% referiam-se ao desrespeito contra os velhos nos ônibus. A Delegacia do Idoso, criada em 1991 em Sao Paulo, registrou 950 ocorrências até o mês de abril. "Sao poucas", reconhece o delegado titular, Antônio Pontes Silva. "Muita gente tem receio de prestar queixa porque na maioria das vezes os agressores sao os próprios familiares. O caso típico é o do filho desempregado que bebe e espanca a mae, o pai ou o tio." Um dos casos mais escabrosos foi o de EIza Aparecida da Silva - cega -, que vê o corpo todo queimado pela nora em 1992, quando tinha 62 anos. Outro idoso, Mario Marchinni, apresentou queixa contra os quatro filhos, em 1989. Apesar de ser dono de diversos imóveis, Marchinni era mantido cativo no banheiro de uma velha casa. As propriedades sao administradas por seus filhos, que estao tentando interditar o pai. A aposentada Maria Evangelista Lima, 79 anos, foi assaltada por três pivetes no domingo 15, em Duque de Caxias (RJ). Eles roubaram seu guarda-chuva e a mulher quebrou o braco no ataque. Maria Evangelista perambulou durante três dias por vários hospitais da Baixada Fluminense, sem obter atendimento. No dia 18, teve de ir ao Rio de Janeiro. Exatamente naquele dia comecava uma greve de 48 horas na rede municipal de saúde. A aposentada voltou para casa, em Duque de Caxias, com o braco em uma tipóia improvisada. Em uma tentativa de reduzir o descaso para com o idoso, o presidente Itamar Franco sancionou recentemente a Lei n. 8.824, que trata da elaboracao de uma política nacional para essa fatia da populacao. A lei prevê, entre outras coisas, prioridade aos mais velhos no atendimento em hospitais e postos de saúde do Estado. Na semana passada - na qual Itamar Franco Ficou no Rio de janeiro - sua Agenda esteve repleta de entrevistas. Desde novos e velhos dirigentes da UNE ao presidente da Confederacao Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira. Um dos únicos candidatos à conversa que ficou de fora foi o aposentado Francisco Avelino de Jesus, morador de uma favela na Ilha do Governador. "Eu queria resolver o problema da minha aposentadoria porque trabalhei 36 anos e, afinal, sou um cidadao", disse. O cidadao idoso Francisco Avelino de Jesus saiu de maos abanando (revista IstoÉ-Ed.1286- 25/05/94)