OS PARTIDOS ANUNCIAM SEUS ORÇAMENTOS DE CAMPANHA

Os candidatos foram obrigados na semana passada a tratar, em público, de um tema que sempre preferiram sussurrar entre quatro paredes: o dinheiro da campanha. Candidatos a presidente, governador, senador e deputados apresentaram uma previsao oficial de gastos ao Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. O candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, avisou que planeja gastar 75 milhoes de dólares em sua campanha. Orestes Quércia, do PMDB, pretende despender 58,5 milhoes de dólares. Um pouco mais modesto, Flávio Rocha, do PL, orcou sua campanha em 50 milhoes de dólares. O candidato Esperidiao Amin, do PPR, estimou seus gastos em 40 milhoes e o ex- governador Leonel Brizola, ainda fechando as contas, acredita que sua campanha ficará no mínimo em 30 milhoes--ele admite que poderá chegar aos 50 milhoes. Luís Inácio Lula da Silva, do PT, fez a contabilidade mais modesta. Calcula que sua campanha custará 30 milhoes de dólares. Essas previsoes oficiais sao feitas por exigência da nova lei eleitoral. É com base nelas que serao computados os bonus eleitoraisa que cada partido tem direito. Assim, o candidato do PSDB pode vender até 75 milhoes de dólares em bonus, que funcionam como uma espécie de nota fiscal que o partido entrega ao empresário ou cidadao que colaborou com a campanha. Mas é apenas uma previsao. O tucano pode vender menos do que isso, assim como ninguém acredita que, se nao sair de seu posto atual nas pesquisas, Flávio Rocha irá encontrar tantos amigos perdulários para lhe dar 50 milhoes de dólares. Os bonus sao fornecidos pelo Ministério da Fazenda, e os partidos podem gastar até o limite dos orcamentos entregues ao TSE. Se as previsoes forem para valer, é dinheiro saindo pelo ladrao. Na última eleicao americana, a conta de campanha dos concorrentes, George Bush e Bill Clinton, ficou em algum ponto entre 100 e 150 milhoes de dólares cada um. Considerando que a renda per capita dos Estados Unidos está em 22 500 dólares e a brasileira nao chega a 3 000 dólares, estaria de bom tamanho se na disputa pela cadeira de Itamar se gastasse sete vezes menos. Mas talvez se chegue perto dos 300 milhoes de dólares da campanha americana. ESPIRITO CARIDOSO--Mais grave é um outro dado. A conviccao, comum à maioria dos partidos, de que os números apresenados ao TSE sao de mentirinha, já que os gastos poderao ser ainda maiores. Somando o dinheiro legal e o ilegal, além das previsoes de gasto de candidatos a todos os cargos em disputa, estima-se que a campanha de 1994 movimentará uma bolada perto de 3 bilhoes de dólares. Ninguém dá dinheiro a um candidato por filantropia. Se houvesse tanto espírito caridoso no país, o humorista Renato Aragao teria arrecadado mais do que 1,5 milhao de dólares depois de passar 24 horas na tela da TV pedindo contribuicoes para o Unicef. No Brasil, a nova legislacao eleitoral, permitindo que empresas doem dinheiro aos candidatos via bonus, é uma tentativa de inibir grandes fraudes. Como esse tipo de contribuicao era proibido, o dinheiro escorria para a eleicao através de canais clandestinos, como as contas fantasmas de PC. "Quem quer andar dentro da lei tem agora o caminho e o espaco legal", diz o deputado Joao Almeida, do PMDB da Bahia, relator da lei eleitoral. O sistema é perfeito na teoria. Os orcamentos oficiais acabam subavaliados por dois motivos. Em primeiro lugar, nao fica bem, diante de um eleitorado irritado com denúncias envolvendo políticos, confessar os milhoes de dólares que se pretende gastar numa eleicao. "É horrivel, fica ostensivo demais", diz José Fernando Bruno, secretário do PMDB de Sao Paulo. Outro motivo está no plano dos costumes. Muitas empresas continuam mexendo com o caixa dois e muitas pretendem tirar dessa reserva clandestina o dinheiro para dar aos candidatos--que, por sua vez, nao tem como registrá-lo na contabilidade oficial. O presidente do Conselho Federal de Contabilidade, José Maria Mendes, acredita que os bonus podem ser vendidos pelos candidatos às empresas amigas para ajudá-las a encobrir despesas para as quais nao querem tirar recibo. CANDIDATO MAIONESE-- Um exemplo de cautela com o eleitor vem de Brasilia. O empresário Luiz Estevao, amigao de Collor, é candidato a deputado distrital pelo PP. Estevao quer eleger uma bancada de mais oito deputados pelo partido, esperando que eles o apóiem como candidato ao governo do Distrito Federal em 1998. Estima-se que, para bancar sua campanha e ajudar os amigos, o empresário gastará 20 milhoes de dólares. Estevao, que despendeu 110.000 dólares na festa de 15 anos de sua filha Ilca, jura que vai gastar pouco mais na campanha: 150.000 dólares. "Nao quero ficar conhecido como um candidato perdulário", explica. "Ele vai comprar quem for preciso para se transformar no dono da cidade", afirma o deputado Paulo Octávio, candidato à reeleicao. "O PRN ele já comprou." Na quinta-feira, Estevao entrou com uma queixa-crime contra Paulo Octávio no STF. Quem tem base eleitoral gasta pouco. Quem nao tem base gasta o dobro, diz Goro Hama, secretário-geral do PSDB de Sao Paulo. O cientista político Marcos Figueiredo observa que existem tres tipos de candidato. Os líderes com uma base social própria, como bancários, metalúrgicos ou lobistas de uma estatal. Ainda que sejam desconhecidos da maioria do eleitorado, podem gastar pouco. "Eles tem uma rede social que trabalha de graca. Nao precisam montar uma estrutura grande para que seu nome chegue ao eleitor", diz. Há uma classe de candidatos como Delfim Netto, do PPR. José Serra, do PSDB, e José Genoíno, do PT. Todos tem servico para mostrar ao eleitor. Nessa classe estava o ex-deputado Ulysses Guimaraes, do PMDB, que fazia campanhas de bolsos vazios, mas tinha uma boa história para contar. Um terceiro tipo sao os pára-quedistas, pessoas que nunca fizeram política e decidem de uma hora para outra descobrir se tem vocacao para a coisa. Eles é que transferem para a política um maquinário próprio das campanhas de publicidade, pois tentam conseguir uma cadeira de deputado como se estivessem lancando uma nova marca de maionese. E isso custa muito dinheiro. "Só para sair do anonimato e conquistar os primeiros 10.000 votos, o candidato gasta 100.000 dólares", diz Figueiredo. Segundo uma empresa de marketing, Meio & Mensagem, um candidato-maionese precisaria de 1,5 milhao a 2 milhoes de dólares para virar deputado em Brasília. Com isso, consegue contratar assessoria de imprensa, produzir spots para rádio e vinhetas de TV e se equipar com dois carros de som, cinquenta cabos eleitorais e oitenta outdoors. RIQUEZA ESTADUAL-- inventar um candidato dessa família nunca é fácil e sempre é caro. No Rio Grande do Sul, o empresário Luís Carlos Mandelli, ex-presidente da Federacao das Indústrias gaúcha, tentou lancar-se em dezembro. Visitou 252 cidades e desistiu. Descobriu que teria de desembolsar 5 milhoes de dólares para financiar cabos eleitorais e dobradinhas com deputados estaduais de maior prestígio. Em Pernambuco, Gustavo Krause, do PFL, apesar de ter sido ministro, estima que precisará de 7,5 milhoes de dólares para concorrer ao governo contra Miguel Arraes, o mito, que gastará 30% menos. Para tirar o candidato ao governo Barros Munhoz do limbo, o quercismo de Sao Paulo pretende gastar 70 milhoes de dólares. Só o orcamento individual de Munhoz está estimado em 25 milhoes. É o dobro do que Mário Covas, do PSDB, com 55% nas pesquisas, pretende gastar. Munhoz faz a campanha estadual mais cara do país, junto com a de José de Alencar, candidato do PMDB ao governo de Minas Gerais. Em terceiro nas pesquisas, com 4% das intencoes de voto, Alencar quer arrebentar a boca do balao. Ex- presidente da Federacao das Indústrias de Minas Gerais, Fiemg, Alencar vai distribuir 2 milhoes de santinhos, 200.000 camisetas e 500 outdoors pelo Estado para virar uma pessoa conhecida. Visitará 750 cidades e comparecerá a showmícios quase todos os dias. Uma equipe de TV, com estudio desmontável, seguirá o candidato. O primeiro showmício de Alencar, em Muriaé, sua cidade natal será animado pelo cantor Moraes Moreira (revista Veja-Ed.1.344-15/06/94)