DESCONFIANÇA AMEAÇA PARCERIA NO COMBATE À FOME

A eleição ameaça a parceria que uniu governo e sociedade civil no Programa de Combate à Fome. A proposta de distribuir 400 mil toneladas de alimentos, estocados em armazéns do governo, preocupa as duas partes, que nutrem suspeitas recíprocas sobre quem colherá os dividendos eleitorais da doação. De um lado, o grupo do governo teme que a distribuição seja usada pelos comitês da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida para favorecer o candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva. De outro, o grupo da sociedade civil teme que o governo controle a doação e acabe auxiliando o candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso. O Executivo gostaria de manter a distribuição sob seu controle. A Ação da Cidadania acha que pode encarregar-se da tarefa. "Há de todos os lados o desejo de usar o Programa", reconheceu dom Mauro Morelli, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA). As 400 mil toneladas (100 mil de arroz, 100 mil de trigo e 200 mil de milho) representam o dobro do que foi distribuído pelo Prodea (Programa de Distribuição Emergencial feito no Nordeste) que doou 10 milhões de cestas básicas. A quantidade corresponde também ao dobro do volume de alimentos necessários para a merenda escolar que atende a 31 milhões de crianças por ano. Segundo estimativa do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), seriam 50 quilos de alimentos para cada uma das oito milhões de famílias identificadas no Mapa da Fome. Estamos em pleno período eleitoral, esses alimentos podem servir a
80607 milhões de interessados e os comitês não terão como manter a situação
80607 sob controle, constatou a assessora de Assuntos Sociais da Presidência da República, Denise Paiva. "Não desprezamos a ação do governo, mas apostamos na Ação da Cidadania. Na Ação da Cidadania há pessoas de todos os partidos. No entanto, o mesmo não podemos dizer sobre as prefeituras que seriam usadas pelo governo na distribuição. Há muito mais prefeituras apoiando Fernando Henrique do que Lula", observou Herbert de Souza, o Betinho, coordenador nacional da Ação da Cidadania. No Palácio do Planalto, assessores do presidente Itamar Franco, que baterá o martelo na discussão, não escondem o receio de entregar esse filão eleitoral nas mãos da Ação da Cidadania. "O Programa da fome é uma das melhores realizações do governo Itamar Franco e, inclusive, vamos divulgá-lo melhor em uma campanha institucional. Infelizmente, porém, é uma arma na mão do PT", disse um assessor do presidente (O Globo).