Os assentamentos de sem-terra em Santa Catarina sobrevivem em situação de miséria. Em quase todos os pontos que abrigam 2.400 famílias vigora a ausência de habitações adequadas e infra-estrutura. Na maioria, há ainda uma agravante: a fome. As áreas não foram recém-ocupadas. Os módulos, desapropriados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), já foram entregues aos pequenos agricultores-- alguns há cerca de oito anos. Mesmo assim, a precaridade dá o tom, em meio à falta de assistência e, não raro, ao desperdício de recursos públicos. Em Calmon, está o principal exemplo da penúria, em área que reúne desde 1986 cerca de 300 famílias. Cada uma ocupa lote de 19,4 hectares. Entre os assentados, está o vice-prefeito da cidade, Luís Carlos Bugança (PT), integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). O assentamento foi batizado de "Conquista 5 de Maio", data da emissão de posse dos terrenos e do nascimento de Karl Marx. Escassas, as plantações não garantem sequer a subsistência. "Estamos passando fome", desabafou o vice-prefeito. Para sobreviver, os assentados vendem madeira para a produção de carvão. O corte, no entanto, é ilegal. Apesar da ausência de produção, um detalhe curioso: no início da formação do 5 de Maio foi construído um armazém para a secagem de grãos, com cerca de 80 metros quadrados. "Mas nunca armazenamos nada", reconhece Bugança. O dinheiro para a obra veio do governo federal. "Não dá para saber quanto custou, porque faz muito tempo e a moeda não parou de mudar", disse o vice-prefeito. A estimativa do total de créditos federais liberados este ano em todo o país é de US$50 milhões. Lideranças do MST creditam o desperdício a uma imposição do INCRA para que a obra fosse realizada. Resultado da pobreza em Calmon, 40% dos assentados abandonaram ou venderam seus lotes. "Nós não permitimos isso porque terra é para produzir e não para vender, mas, às vezes, acontece", reconheceu Bugança, analisando: Isso tudo vem da falta de assistência técnica do governo. Mas, para o superintendente do INCRA em Santa Catarina, Ademar Simon, o problema não é apenas esse. "A assistência é um problema sério, mas alguns assentamentos são muito desorganizados", avaliou. Para reverter esse quadro, Simon está realizando seminários com sem-terra de todo o estado, ao lado de órgãos municipais e estaduais como a Secretaria de Agricultura e Abastecimento. Exemplo considerado positivo por Simon, a Cooperativa 30 de Outubro, em Campos Alto, tem uma situação diferente da de Calmon. Formada desde o final de 1988, a cooperativa agrupa 33 famílias. Mesmo que incipiente, a produ,ão está organizada, totalizando, entre outros itens, 250 litros de leite por dia, 10 toneladas de fumo e 4.700 sacas de milho por ano, além de aves, suínos e feijão. Passa, contudo, por dificuldades. As casas são de lona, em região de inverno rigoroso (O ESP).