EXÉRCITO ACOMPANHA AÇÃO DOS SEM-TERRA

O general Gilberto Serra, porta-voz do Exército, disse ontem que a instituição acompanha atentamente os movimentos dos sem-terra no país porque, "em última instância, se for necessário, e sempre dentro da Constituição, nós é que vamos ser empregados para evitar a violência". O Exército produz relatórios sobre o Movimento dos Sem-Terra (MST). Eles são concentrados no Centro de Informações do Exército (CIE), órgão ligado ao gabinete do ministro, em Brasília (DF). Por enquanto, de acordo com o general Serra, todos os movimentos dos sem-terra estão sob o controle das Polícias Militares. "As polícias, até agora, têm cumprido eficientemente a sua missão", disse, acentuando que, "se elas precisarem de auxílio, atendendo sempre aos trâmites legais, o Exército estará pronto para atuar". Na Fazenda dos Trabalhadores, no Município de Ipojuca (PE), apontada como um dos centros de treinamento de guerrilha dos sem-terra pelo documento confidencial da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), vivem 250 famílias que ocuparam a área de 722 hectares há quase cinco anos. "O único treinamento de guerrilha que temos aqui é o da sobrevivência", afirmou Maria Rosa dos Santos, mulher de José Luiz Sobrinho, presidente da Associação dos Trabalhadores Sem-Terra Ocupantes de Suape. Segundo José Luiz, "essa história da guerrilha é antiga, mas não passa de uma fantasia, um blefe". O MST rebateu ontem as acusações da SAE. "A SAE não apresenta uma prova", critica a nota assinada por Egídio Brunetto, secretário da entidade. Ele acusa a imprensa de ser "porta-voz do ex-SNI, isentando-se da responsabilidade de verificar a veracidade das informações" e alega que as normas internas do MST são "fantasiosamente apresentadas como manual de instrução militar". Ex-diretor da Central Única dos Trabalhadores em Pernambuco (CUT-PE) e ex- integrante do MST, José Luiz é hoje um crítico contundente dos métodos do MST. Convicto de que reforma agrária não se faz só com a ocupação de terra, luta pela criação de um movimento amplo sem conotação político- ideológica, que una os sem-terra, os com terra, o MST, a Igreja, políticos e a sociedade, visando a mudança da estrutura fundiária brasileira. "Não pode ser um projeto radical, nem excluir a educação, a saúde e a qualificação da mão-de-obra, para se tornar realidade". Perguntado se acha que o MST é o canal para a realização de uma reforma agrária, José Luiz respondeu: "Não. Ele é um dos instrumentos. O que critico no movimento e busco alertar os companheiros é que a reforma agrária não pertence a uma entidade. Não questiono as melhores intenções do MST, mas o movimento tem adotado uma política caracterizada pela imposição, burocracia e estatização. Se não se cuidar, o MST termina sendo paternalista e se considerando o dono da reforma agrária. Já há conflitos em áreas desapropriadas quanto a quem pertence a terra: aos trabalhadores ou ao MST? Não estou defendendo o capitalismo como solução. É preciso encontrar um meio termo (O ESP) (JB).