A maior safra de grãos da história do Brasil, avaliada em 73,6 milhões de toneladas pelo governo, vai bater também o recorde de desperdício. Projeção realizada com base em índices de perdas da Fundação João Pinheiro, de Belo Horizonte (MG), avalia em US$2,752 bilhões as perdas da safra de verão. O cálculo considera apenas perdas ocorridas durante as fases de colheita, transporte e armazenamento de sete produtos da safra de verão (algodão, amendoim, arroz, feijão, mamona, milho e soja). Se for levado em conta o desperdício de frutas e hortaliças, o valor das perdas agrícolas no país ultrapassa US$6,5 bilhões. Estimativa realizada no ano passado pela Secretaria de Agricultura de São Paulo avalia em US$3,8 bilhões as perdas de hortigranjeiros no Brasil na safra 92. Dos 73,6 milhões de toneladas de cereais e oleaginosas que o país está
80134 colhendo, 58,2 milhões de toneladas devem chegar ao mercado, diz o economista João Batista Rezende, da Fundação João Pinheiro. O restante (15,4 milhões de toneladas) vai se perder no caminho entre a fazenda e a agroindústria, acrescenta ele. Para o economista, existe uma cultura do desperdício no país. Cita como exemplo as escolas de agronomia, "que estão preocupadas somente com o aumento da produtividade e não ensinam os alunos a reduzir perdas". Os números do desperdício agrícola no Brasil assumem proporções alarmantes quando traduzidas para o consumo. Somente com o valor estimado para as perdas de grãos nesta safra (os US$2,752 bilhões) é possível alimentar, por um ano, 1,095 famílias (de quatro pessoas) com a ração essencial fixada pelo decreto-lei 399, de 30/04/38. Esta ração, avaliada em US$209 mensais, inclui carne, leite, feijão, café, pão, arroz, farinha de trigo, batata, tomate, banana, açúcar, óleo e manteiga. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), divulgado no ano passado, estima em 9,2 milhões de famílias a população indigente do Brasil. Com US$2,752 bilhões é possível ainda renovar a frota de máquinas agrícolas do país. Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o Brasil importou, em 1991, 7,349 milhões de toneladas de grãos. Em 1992, 6,470 milhões de toneladas, e no ano passado, 8,537 milhões de toneladas (FSP).