DÓLARES DE ONGs NÃO CHEGAM À CRIANÇA DE RUA

O dinheiro que entidades particulares nacionais e estrangeiras enviam anualmente às 18 organizações não-governamentais (ONGs)-- US$3,6 milhões-- que cuidam dos cerca de 1.200 meninos de rua do Rio de Janeiro (RJ) daria para cada um deles receber US$3 mil por ano, quase quatro vezes o que recebe um trabalhador de salário-mínimo. Ou então para manter 450 abrigos de 35 crianças cada, que cuidariam de 15.750 meninos. Esta quantia seria suficiente ainda para alimentar, com duas refeições diárias, 1.200 crianças de rua durante 49 anos. Contudo, não é o que se vê. Dez meses após o massacre de nove meninos na Candelária e dez anos depois que a geração das ruas virou tema privilegiado de pesquisas, cerca de 1.200 dessas crianças permanecem nas ruas do Rio. As ONGs que se dedicam aos meninos consomem boa parte do dinheiro. Empregam cerca de 600 pessoas, ou um funcionário para duas crianças, em projetos de assistência direta, pesquisas e assistência jurídica de resultado duvidoso. A maioria dos projetos não decola. Existe muito pouco resultado para o investimento que é feito, diz Yvonne Bezerra de Mello, voluntária que trabalha por conta própria e se dedica mais a ajudar as crianças de rua que muitas ONGs. Há exceções. A Associação Beneficiente São Martinho, uma ONG que recebeu CR$98 milhões (cerca de US$1 milhão) em 1993, apresenta um trabalho consistente: em 10 anos retirou das ruas 600 crianças e mantém 120 em casas de acolhida, treinando-as para o mercado de trabalho. Para Yvonne, o que falta "é uma costura entre as ONGs e o poder público. Para fazer seu trabalho, as ONGs precisam de infra-estrutura social, escolas e hospitais, que o estado, a federação e o município não dão. Como não existe uma costura nos esforços, fica cada um por si e o trabalho não rende", constata. A ajuda oficial também não rende. O governo do estado destina US$19,8 milhões, ou 0,3% de seu orçamento para sua rede de assistência aos menores, que tem sua base no Complexo de Quintino. O médico Lauro Monteiro Filho, diretor da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA)-- ONG que combate a violência contra crianças de modo geral-- admite que há uma institucionalização do problema. As diferenças de pontos de vista entre as ONGs são evidentes. O psiquiatra holandês Nanko Geerdines, diretor do Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde Social (Ibiss), embora concorde que é errado deixar os garotos na rua, acredita que algumas crianças "precisam ser trabalhadas até por três ou quatro anos para que possam voltar para casa. Não adianta mandá-las simplesmente de volta para locais como a favela do Lixão, em Duque de Caxias; para morar ao lado de uma vala negra ou para a casa em que foram estupradas. Também não adianta colocá-las em depósitos de crianças, como a ex-FUNABEM", diz Geerdines. A argumentação do holandês também pode ser entendida da seguinte forma: a existência das ONGs depende da presença de crianças nas ruas. No dia em que o problema acabar, essas instituições perderão o sentido e a função. O professor Roberto José dos Santos, coordenador da São Martinho, discorda do holandês e é mais incisivo, ao afirmar que a rua "é tão ruim quanto o pior lugar de onde a criança fugiu". Ele acha que uma saíde é deixar os meninos e meninas em casas de acolhida que abrigam atá 40 crianças sob os cuidados de educadores no papel de pais substitutos. O fato é que muitas ONGs estão longe de apresentar um trabalho consequ"ente. "Existe uma ONG que ensina capoeira aos meninos de rua e envia alguns garotos para a Europa, onde vão fazer exibições. Quando eles voltam para o Rio, recebem o pagamento pelo serviço prestado e são jogados de novo nas ruas. É claro que o garoto vai comprar um galão de cola para cheirar com os colegas", conta um educador. A confusão e a falta de organização parecem atingir até a Childhope Foundation, instituição internacional cuja finalidade é fiscalizar os investimentos estrangeiros das ONGs que trabalham com meninos de rua. Semana passada, na sede da instituição, no Rio, sequer havia alguém para responder pela Childhope. Uma secretária dizia ao telefone que "todos os diretores estão numa reunião nos EUA e a assessora de comunicação está de férias" (JB).