A Suprema Corte de Justiça da Venezuela determinou ontem, por 10 votos a quatro, a prisão do ex-presidente Carlos Andrés Pérez, de 71 anos, afastado do cargo no ano passado em meio a denúncias de corrupção. Os juízes consideraram que há elementos suficientes para inculpar o ex- presidente no caso de peculato e malversação de fundos públicos em um escândalo cambial de US$17 milhões. Pérez, que estava aguardando a decisão na sede do tribunal, foi transportado diretamente para a sede do corpo técnico da polícia, onde tiraram fotos e suas impressões digitais. Dali foi para a Penitenciária de Junquito, onde passou a conviver com alguns dos mais perigosos bandidos do país. Também foram expedidos mandados de detenção contra dois ex-ministros de Pérez, Alejandro Izaguirre (Interior) e Reinaldo Figueiredo (Relações Exteriores). Como a Suprema Corte é a instância máxima da Justiça, Pérez não pode recorrer da decisão. A decisão da corte de mandá-lo para uma penitenciária comum surpreendeu a todos, já que aquela instância tinha a prerrogativa de ditar prisão domiciliar, pelo fato de Pérez ter mais de 70 anos. O ex-presidente disse que pode ter cometido erros no passado, mas nada que mereça esse tratamento vexatório. De qualquer maneira, garantiu que não vai querer qualquer tratamento privilegiado. Assim sendo, a expectativa é que não tentará obter liberdade sob fiança. Em um documento divulgado antes da prisão, Pérez rejeitou as acusações. "Eu sou vítima de uma gigantesca conspiração", afirmou. "Estou sendo preso para começar um julgamento com a intenção de satisfazer ódios e ressentimentos dos que me atacam com raiva impiedosa", completou. Se condenado, o ex-presidente pode ser sentenciado a até 13 anos de prisão. Carlos Andrés Pérez foi afastado da Presidência em maio de 1993, depois de o Senado ter concluído que havia evidências suficientes para julgá-lo sob a acusação de corrupção. Pérez e seus dois ex-ministros são acusados de usar o dinheiro de um fundo secreto do governo para comprar US$17 milhões com uma taxa cambial preferencial. Eles teriam vendido os dólares no mercado livre, obtendo lucro equivalente a US$10 milhões. Pérez teria desviado parte do lucro para a segurança da presidente da Nicarágua, Violeta Chamorro. Outra, para cobrir os seus gastos e de sua amante Cecilia Mattos. O ex-presidente não confirma esta versão, mas diz estar "sendo acusado de ter contribuído para o fortalecimento da democracia na Nicarágua". Carlos Andrés Pérez dirigiu o Partido de Ação Democrática e exerceu a Presidência da Venezuela pela primeira vez entre 1974 e 1979. Ele foi eleito novamente em dezembro de 1988. No seu segundo mandato, Pérez enfrentou revolta contra alta de preços em 1989 e dois golpes militares fracassados em 1992. Pérez foi o segundo presidente de um país da América Latina a ser afastado sob suspeitas de irregularidades. O ex- presidente brasileiro Fernando Collor de Mello sofreu Impeachment" em 1992. Pérez, que defendia a democracia no continente, rompeu relações diplomáticas com o Suriname, o Haiti e o Peru quando ditaduras assumiram o poder. Ele também participou da renegociação do tratado do canal do Panamá entre os presidentes Jimmy Carter (EUA) e Omar Torrijos (Panamá) na década de 70. Durante o período de Impeachment" de Pérez, assumiu o governo o senador Ramón Velásquez, dirigindo o país até as eleições de dezembro último. Rafael Caldera, um dos principais adversários de Pérez, foi escolhido para governar a Venezuela (JB) (FSP).