O CAMPO NÃO DEVE TANTO

O setor agrícola-- cuja bancada no Congresso Nacional obstruiu, por duas vezes, a possibilidade de votação da medida provisória que criou a Unidade Real de Valor (URV) e o real-- conseguiu, nos últimos 15 anos, desvencilhar-se dos financiamentos oficiais, construiu mecanismos alternativos de crédito e, em boa parte, consegue, hoje, andar com suas próprias pernas. Os problemas do endividamento, que estariam na base das discussões da bancada ruralista com a equipe econômica do governo, de fato existem, mas estariam localizados em alguns segmentos do setor agrícola: sobretudo entre os rizicultores do Rio Grande do Sul e sojicultores do Centro-Oeste. Em 1979, o crédito concedido ao setor chegou a representar, pela existência de fraudes, cerca de 120% do produto agropecuário. Medidas de contenção do gasto público, associadas à política de retirada dos subsídios, levaram a que essa equivalência caísse para a casa dos 15%. Ou seja, o volume de crédito rural, hoje, equivale a apenas 15% do produto agropecuário. As dívidas agrícolas em atraso no Banco do Brasil representam cerca de US$2,5 bilhões a US$3 bilhões (algo próximo a 25% do total da carteira de financiamento do BB ao setor). Um terço dos produtores rurais pagou a dívida (oriunda do descasamento) ao banco. Dois terços aguardam uma solução por parte do governo. Essa é uma discussão que, pelos indicadores para este ano, em nada comprometeria o desempenho do produto agrícola, cujo crescimento é estimado em 6,6% (GM).