Num dia marcado pela realização de greves nos serviços essenciais em vários estados e pela ocupação de prédios da Polícia Federal pelas Forças Armadas, a Justiça do Trabalho começou a conceder, em dissídios coletivos, antecipações salariais com base numa eventual inflação em real. Ontem, ao julgar a greve dos metroviários, motoristas e cobradores da cidade de São Paulo (SP), o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) determinou que o estado, município e empresas de ônibus paguem aos trabalhadores um aumento real de 7%, que incide sobre salários já em Unidade Real de Valor (URV), e uma antecipação salarial de 10%-- parcelada em duas vezes--, a ser compensada na data-base de 1995, portanto válida para o período do real. Os trabalhadores aceitaram a proposta e encerraram o movimento. Enquanto a Justiça do Trabalho julgava as duas mobilizações, em Brasília (DF) e em São Paulo as Forças Armadas mantinham ocupadas as sedes da PF. Na praça dos Três Poderes, tropas do Exército circulavam e faziam exercícios de adestramento. Os policiais federais estão em greve há 53 dias e, a exemplo dos auditores da Receita Federal, funcionários da Previdência Social, médicos de São Paulo e de Florianópolis (SC) e professores paulistas, entre outras categorias, não fixaram data para o término da paralisação. Também estão em greve os professores universitários da Paraíba e os metalúrgicos de Santos (SP). A ocupação dos prédios da PF pelas Forças Armadas foi determinada pelo presidente Itamar Franco. O presidente justificou a ocupação como uma medida necessária para a "manutenção da lei e da ordem e para preservar o patrimônio público". A intervenção mobilizou mais de 20 mil militares no país. Ontem foi o "dia nacional de mobilização", convocado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT). Dos EUA, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que greve não pode ser "pretexto para ocupações militares" e recomendou prudência aos grevistas. A decisão do presidente de convocar tropas do Exército foi influenciada por relatórios dos serviços de informações do governo. Os documentos foram preparados pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) e pelo setor de informações do Exército. Os textos levantam a suspeita de que a CUT estaria promovendo uma suposta articulação nacional, com objetivos eleitorais. O presidente da CUT, Jair Meneguelli, disse que a onda de greves pelo país é "absolutamente natural". Ele afirmou que, se comparados aos anos anteriores, as paralisações de hoje são infinitamente menores. "Há greves porque o plano econômico não preserva os salários da inflação", acrescentou. Para deputados e senadores, o presidente Itamar Franco "se precipitou" ao tomar a decisão. Na Câmara, o deputado José Luiz Clerot (PMDB-PB) usou a tribuna para criticar o presidente: "É uma extravagância, não precisava apelar para o Exército". O ex-ministro da Justiça, deputado Fernando Lyra (PSB-PE), achou a medida "desproposital. Mostra incompetência em resolver o problema. Feliz ou infelizmente, a greve é um direito constitucional", disse. Os presidentes da Câmara, Inocêncio Oliveira (PFL-PE), e do Senado, Humberto Lucena (PMDB-PB), no entanto, apoiaram a atitude do governo. Em todas as paralisações de ontem não foram cumpridas a lei de greve e liminares judiciais que obrigam os grevistas a manter em funcionamento os serviços indispensáveis à comunidade. Do outro lado do espectro político, as centrais sindicais-- principalmente a CUT-- vêem nesse movimento de greves uma simples reação de protesto contra o plano de estabilização, que teria provocado pelas perdas salariais. No entanto, nenhum dos dois lados parece estar com a razão. Levantamento feito pelo jornal "Gazeta Mercantil" indica que as mesmas categorias que pararam nestes meses de abril e maio pararam também no mesmo período do ano passado, em movimentos ainda mais intensos. Trata-se mais de um processo cíclico de greves, que atinge principalmente o serviço público (GM) (FSP) (O Globo) (JB).