A diretoria da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) admitiu publicamente pela primeira vez que a inexperiência administrativa foi um dos fatores que levaram a entidade à crise que culminou no pedido de US$40 mil aos bicheiros. Até então, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, culpava exclusivamente o avanço da epidemia de AIDS pela crise na entidade. Betinho, na época, recorreu ao atual governador do Rio de Janeiro, Nilo Batista (PDT), que intermediou o acordo com os bicheiros. No editorial do boletim da entidade deste mês, assinado por seus coordenadores Jane Galvão e Richard Parker, a entidade admite que os dólares captados no exterior não eram aplicados com competência. No texto, os coordenadores insinuam que a antiga diretoria tinha menos responsabilidade administrativa do que a atual. "Apesar das dificuldades e de problemas do passado, acreditamos ter conquistado maior estabilidade e responsabilidade administrativa", diz o texto. O diretor da ABIA na época da crise, Herbert Daniel, morreu há dois anos. Entre 1988 e 1990, época da administração de Daniel, a ABIA recebeu de apenas uma de suas financiadoras, a Ahrtag de Londres, US$450 mil. Há ainda informações de que as contas no exterior eram abastecidas pela Ford Fundation (que teria contribuído com US$300 mil em 1988), a Interamerican Foundation e Miseor, uma entidade alemã. A conta do Citibank de Nova Iorque (EUA), onde o dinheiro do bicho foi parar, não era a única que a ABIA tinha no exterior. Havia também uma no Royal Bank of Canadá. O dinheiro depositado nelas deveria ser aplicado em programas de prevenção da AIDS, como produção de vídeos, boletins, cartazes e palestras. O "Jornal do Brasil", entretanto, teve acesso a notas fiscais que revelam que parte do dinheiro foi gasto em supérfulos que nada tinham a ver com a doença (JB).