Mais de um século depois da abolição da escravatura, o Brasil continua sendo um país em que trabalhadores são escravizados sem que autoridades locais investiguem ou punam os culpados. Esta é uma das conclusões de uma investigação de seis meses relatada no livro "Escravidão no Brasil", que será lançado amanhã, em Londres (Inglaterra), pela Anti-Escravidão Internacional, a mais antiga organização do mundo. No Brasil, segundo o livro, a prática que a Organização das Nações Unidas (ONU) chama de "forma contemporânea" de escravidão-- forçar pessoas a trabalharem gratuitamente como forma de "pagar" dívidas inventadas e fraudulentas-- não é esporádica, muito menos restrita a cidades remotas no meio da Amazônia, como fazem crer autoridades brasileiras. Acontece também em São Paulo, o estado mais industrializado e rico do país, e no Paraná, afirma o livro. A autora do livro, Alison Sutton, aponta evidências de que o trabalho escravo está ligado aos setores mais modernos da economia brasileira. Ela mostra o descaso de autoridades na apuração das violações e não poupa o governo federal, que chega ao ponto de violar os compromissos internacionais quanto aos direitos humanos em nome do princípio de autonomia dos Estados. Há pouco mais de 100 anos, a mesma organização lançava uma campanha na capital britânica pela abolição da escravatura no Brasil. Agora, um século depois, a organização lança-se novamente numa campanha junto ao governo inglês, ao Parlamento Europeu, às agências da ONU e às ativistas internacionais em defesa dos "escravos" no Brasil (O Globo).