DESNUTRIÇÃO AFETA 4,9 MILHÕES DE CRIANÇAS NO BRASIL

Neste 1o. de maio, o trabalhador José Osvaldo Lima, 34 anos, não tem o que comemorar. No último dia 26, seu filho único Jeferson, de 2 anos, teve que ser levado às pressas para o hospital, com grave desnutrição, forte diarréia e desidratação. Com sete quilos-- peso de um bebê de oito meses-- Jeferson não tem forças para andar ou falar e passa quase todo o tempo chorando e gemendo. Recebendo um salário-mínimo por mês como funcionário de uma empresa de segurança e gastando mais da metade do dinheiro no aluguel de um barraco num município da Baixada Fluminense, José Osvaldo nao teve condições de garantir a alimentação para seu filho. "Ele nasceu fortinho, era saudável, mas de um ano pra cá foi definhando", conta Eliane, 28 anos, mãe do garoto. Jeferson é um legítimo representante dos 3,7 milhões de crianças, de 0 a 5 anos, que vive numa casa onde a renda familiar é de até um salário- mínimo. Este número alarmante, 74,3% do total de crianças desnutridas no País, faz parte da Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN), realizada em 1989 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em conjunto com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Segundo a pesquisa, 4,9 milhões de crianças no Brasil, ou 30,2% do total, sofrem de algum tipo de desnutrição, seja leve, moderada ou grave. Se nao bastasse o fato de o salário de José Osvaldo não ser suficiente para sustentar a família, ele perdeu o emprego há um mês. Junto com o filho e a mulher, foi morar com a mãe, dona Isabel, numa casa, em Gramacho. "Minha mãe tem pensão de um salário-mínimo e este dinheiro não é suficiente", lamenta ele. A situação de José Osvaldo nao é única. Entre os casos de desnutrição grave, 87% está em famílias com renda até um mínimo e 94% em famílias até dois mínimos. Segundo a economista do IPEA, Ana Maria Peliano, o salário-mínimo dos últimos 20 anos está tão baixo que impede uma família de suprir sua necessidade básica: a alimentação. "E nesse caso, a criancça é quem mais sofre, pois está em formação", analisa ela que tambem é membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA). Dona Isabel faz tudo que pode para alimentar seu neto, mas nem sempre consegue. Carne, queijo, leite-- alimentos com as proteínas necessárias para a formação de uma criança-- já não fazem mais parte do cardápio da família de José Osvaldo. "As crianças do Brasil estão emagrecendo, definhando, morrendo. É um salário-mínimo absurdo, num país de pouca vergonha", se revolta o desempregado José Osvaldo. Embora a pesquisa do IPEA já tenha mais de cinco anos, ela é, na opinião de Ana Peliano, extremamente atual. "Sem um estudo mais profundo, fica difícil dizer se a situação da desnutrição infantil está significativamente pior hoje, mas há alguns fatores que nos levam a crer que sim: a queda brutal do salário-mínimo durante os anos 90 e a crise na área de saúde", conclui (O Dia).