Há mais de um mês, 12 trabalhadores rurais estão presos em Marabá (PA), sem direito a fiança. Eles são acusados de comandar ocupações de terras no sul do Pará, mas até agora a polícia não conseguiu provar nada contra os detidos. Esta tem sido a prática constante das autoridades paraenses diante dos conflitos agrários que se arrastam desde os anos 70 e já fizeram 1.630 mortes, segundo levantamento das várias comissões pastorais da terra e da CPI da Violência, instalada pela Câmara dos Deputados para investigar os assassinatos por encomenda nas cidades de Marabá, Xinguara, Rio Maria e Redenção. O Bico do Papagaio-- formado pelos estados do Pará, Maranhão e Tocantins- - é a região do país que concentra O maior número de assassinatos por conflito de terra: são 227 processos em andamento na Justiça, fora os que a polícia desprezou. Membro da CPI da Violência, a deputada federal Socorro Gomes (PC do B-PA) apresentou um relatório à parte ao Ministério da Justiça. Nele, inclui outras formas de violência praticadas na região, que vão desde castração de crianças no município de Altamira (PA), até a execução à bala em praça pública. Segundo a parlamentar, a situação seria outra se o governo levasse a sério os programas de reforma agrária: com uma boa distribuição de terras e infra-estrutura para os colonos, não haveria pistolagem, miséria ou qualquer tipo de ameaça à vida humana, conforme sua avaliação. O Pará concentra os casos mais graves de violência no campo, segundo a CPI. De 1964 até 1992, foram mortos 228 líderes sindicais rurais. De 1992 até hoje, mais 30 foram igualmente assassinados. Mandantes e executores estão soltos, mas todos os posseiros que recorreram às armas acabaram presos ou mortos. Um exemplo: na Fazenda São Judas Tadeu, em Palestina do Pará, com 1.984 hectares, 391 famílias permanecem esperando pelo assentamento, mas o governo não define os lotes e nem as obras de infra- estrutura, permitindo a fermentação de ódios e ressentimentos entre os próprios posseiros (JB).