Ser portador do vírus da AIDS não significa morte no dia seguinte à contaminação. Os avanços da medicina garantem sobrevida e, com certos cuidados, é possível manter a rotina de trabalho e ganhar tempo para colocar projetos em prática. Um dos desejos mais polêmicos desse grupo, o de ser mãe ou pai, é uma realidade que começa a bater à porta de infectologistas e entidades de proteção aos portadores do HIV. Médicos estão assustados e ficam apreensivos diante de uma pessoa interessada na maternidade ou que já aparece grávida no consultório, mesmo sabendo do risco de 30% de a criança nascer soropositiva. A situação é delicada, polêmica e fomos pegos de surpresa, comenta a médica infectologista Grace Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo (SP). No ano passado, ela acompanhou a gravidez de 120 mulheres soropositivas, sendo que 5% haviam planejado ser mãe. Para ela, esse susto é a maior prova de que a sociedade se esqueceu de que os portadores dessa doença fatal têm cotidiano, continuam sonhando e querem se sentir vivos. Em 1992, uma pesquisa feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) com 75 mulheres soropositivas de São Paulo constatou que apenas sete das 15 mulheres grávidas do grupo não sabiam que estavam infectadas. Seis sabiam e duas suspeitavam e, mesmo assim, decidiram pela maternidade. Das 50 mulheres não gestantes, 16 não usavam nenhum método anticoncepcional e pretendiam ter filhos. A estimativa da OMS é que até o ano 2000 cerca de 10 milhões de crianças, filhos de pais infectados, estarão órfãs em todo o mundo. Os homens infectados pelo HIV também demonstram interesse em gerar filhos. A incidência é menor que a das mulheres, segundo infectologistas, mas os homens também pensam em "dar continuidade à vida" sendo pais. O governo federal já havia previsto, em 1989, a possibilidade de mulheres soropositivas optarem pela gravidez. A posição do Ministério da Saúde sobre o assunto está no documento "Aspectos éticos e técnicos da infecção do HIV". A decisão final de ter ou não filhos, pelo relatório, é exclusiva do casal. "Reconhecemos esse direito, mas antes o casal precisa tomar conhecimento de todos os riscos que envolve essa decisão", atesta o documento. Na primeira gestação, o risco de a criança ser contaminada é de 30%. Esse risco sobe para 50% na segunda gravidez (O ESP).