O Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela-- partido com maiores chances de chefiar o primeiro governo democraticamente eleito da África do Sul-- terá a espinhosa tarefa de administrar a herança caótica de mais de três décadas de apartheid. A violência étnica matou nos últimos 10 anos mais de 20 mil negros; o índice oficial de desemprego neste segmento da população é de 66%; 10 milhões não têm água potável em suas residências; 23 milhões vivem sem eletricidade; a situação econômica se deteriora a cada dia: os investimentos caíram 16% no ano passado enquanto o Estado inchou em 70% desde 1980. O acordo de última hora que permitiu a participação do Partido da Liberdade Inkatha, do líder zulu Mangosuthu Buthelezi, nas eleições que começam dia 26 e se encerram dia 28, se por um lado aplacou os temores de um processo eleitoral sangrento, por outro não deverá pôr fim à violência política. Mesmo porque a extrema-direita branca, que prega o boicote eleitoral, ameaça retaliar. Os 22,5 milhões de eleitores habilitados parecem mesmo dispostos a trocarem as clavas, lanças ou mesmo os fuzis de assalto AK-47 pelas cédulas contendo o nome dos 20 partidos inscritos. As pesquisas projetam o índice de comparecimento às urnas em torno de 60%. Desses votos, o CNA-- dominado pelo shosas (segunda maior etnia) e também apoiado por grande parte dos oito milhões de zulus (maior grupo étnico do país-- espera obter dois terços para poder reinar absoluto, sem o artifício das alianças (O Globo).