TRABALHO E MORTE CHEGAM CEDO NO CANAVIAL

Obrigados a empunhar, já a partir dos sete anos de idade, o cabo da foice ou da enxada por até oito horas diárias para ajudar a família, os menores canavieiros pernambucanos estão expostos a uma morte tão precoce quanto a sua entrada no mercado de trabalho. Esses meninos e adolescentes estão condenados a viver, em média, 17 anos a menos que o restante dos brasileiros. A exploração de menores-- que representam 25% da mão-de-obra nos canaviais-- é o resultado da situação de indigência de suas famílias. Pesquisa concluída pelo Centro Josué de Castro, uma das mais respeitadas organizações não-governamentais de Pernambuco, mostrou que 65% desses menores contribuem, de forma direta, com até metade da renda famíliar. No entanto, mesmo com a ajuda das crianças, a renda familiar dos canavieiros corresponde a um terço do salário-mínimo. A pesquisa revelou outro dado sombrio: 35% desses menores estão prejudicando, de forma irreversível, seu desenvolvimento. E para não receberem remuneração, a força de trabalho deles está embutida no aluguel de mão-de-obra dos pais. Entre os que recebem remuneração direta, 35% ganham apenas meio salário-mínimo e só 7,5% um salário inteiro. Mesmo com oferta de emprego, 80,5% das famílias dos canavieiros estão situadas abaixo da linha de pobreza (renda inferior a dois salários-mínimos). Exatamente como seus pais, 91% dos menores começam a trabalhar, clandestinamente, entre os sete e 13 anos. Desnutridas, infestadas de vermes e envenenadas pelos agrotóxicos, essas crianças têm, pelas estatísticas oficiais, expectativa de vida de não mais que 46 anos de idade. Nas regiões canavieiras de São Paulo, esta média sobe para 69 anos. No Brasil, a média é de 63 anos. A mortalidade infantil é outro indicador dramático. Nas regiões canavieiras de São Paulo, como a Jaú, está em torno de 25 mortos por mil nascidos vivos. Em Pernambuco a taxa salta para 131 mortos por mil. A jornada de trabalho esgotante compromete o aprendizado dos menores canavieiros. A pesquisa revelou que 59% deles não sabem ler nem escrever. O risco de continuarem analfabetos é 12 vezes maior que o das crianças da região que não trabalham. Para a Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (FETAPE), a proibição do trabalho de menores de 14 anos nos canaviais-- como já determinou a Justiça estadual-- não resolve o problema. Sem a fiscalização das Delegacias Regionais do Trabalho e forçados pela necessidade, os pais continuam a levar os filhos para a lavoura. Na avaliação da FETAPE, a exploração infantil só terminará com uma mudança no modo de produção na região. para isso, o movimento defende a diversificação da produção agrícola a partir de uma reforma agrária. As estatísticas oficiais mostram que 81,4% da área cultivada da região é ocupada pela cana e que 76,9% das terras abrigam imóveis de mais de 100 hectares. Segundo a FETAPE, há mais de 250 mil hectares-- espaço para abrigar 20 mil famílias-- disponíveis para desapropriação na zona canavieira. A FETAPE reivindica políticas sociais compensatórias para as famílias canavieiras (O Globo).