Nem todo o dinheiro que a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) recebeu quando passou por dificuldades financeiras foi aplicado em programas de prevenção da doença. Gastos supérfluos com decoração, porteiro eletrônico, toldo, alarme e material de jardinagem são alguns exemplos da má administração dos recursos captados principalmente através de contas no exterior. Quando o governador Nilo Batista-- a pedido do presidente de honra da ABIA, Herbert de Souza, o Betinho-- teve de recorrer ao dinheiro da contravenção para que a entidade não fechasse, a ABIA continuava recebendo normalmente recursos do exterior: em 1988, 1989 e 1990, ganhou de uma de suas financiadoras, Ahrtag, de Londres, cerca de US$450 mil. Em 90, quando os funcionários tiveram os salários congelados por um ano, a ABIA recebeu financiamento para passagens para a França. Cliente da agência de viagens Metropol, no centro do Rio, a ABIA comprou naquele ano pelo menos quatro passagens Rio-Paris-Rio e duas São Paulo-Paris-São Paulo. Na época em que teria vivido séria crise financeira (90 e 91), a ABIA tinha endereço nobre: uma casa de dois andares com 400 metros quadrados na Rua Lopes Quintas, Jardim Botânico. E pagava aluguel de mercado (hoje, US$2,2 mil). Para instalar a diretoria no local, em 89, o imóvel passou por várias reformas. A ABIA mudou o sistema elétrico para instalar computadores, colocou alarme, porteiro eletrônico e sistema de refrigeração. Em mais um indício de má administração, mudou de endereço três anos depois, deixando para o proprietário, à exceção dos computadores, todos os demais equipamentos. A iluminação do imóvel foi encomendada à loja especializada Dênis e Pierre, em Ipanema. O "Jornal do Brasil" teve acesso a um recibo da loja indicando que a ABIA pagou em 28 de abril de 1989 cerca de US$1.500 só pelo orçamento do projeto de iluminação e da parte elétrica. O recibo está em nome de uma das funcionárias da ABIA na época. Entre março e julho de 89, a associação gastou cerca de US$6,5 mil principalmente em mobiliário nas lojas Tok & Stok e Habitat. A nota fiscal número 47890 do Carrefour da Barra da Tijuca, em nome da ABIA, revela gastos com alicate para plantas, mangueira plástica, tesoura para gramado, enxadão, plantas e regador plástico. Hoje, o material não tem utilidade, pois a ABIA está num prédio da Rua 7 de Setembro, onde não há sequer plantas. A nota do Carrefour indica ainda compra de tapetes e de um LP de Marisa Monte. O coordenador-geral da ABIA, Richard Parker, não quis fazer declarações. Em nota oficial, a ABIA disse ontem que os esclarecimentos sobre as contas só serão prestados se houver interpelação judicial. A revelação da mulher do bicheiro "Turcão", Therezinha Kalil, de que entregou um envelope com Cr$10 milhões (US$45 mil) nas mãos do então presidente da ABIA, Herbert Daniel, lançou ainda mais suspeitas sobre o episódio envolvendo Nilo Batista, Betinho e os bicheiros. No início da semana, a ABIA apresentou um documento de depósito de US$40 mil do Citibank de Nova Iorque como prova de que o dinheiro da contravenção fora para a conta da associação em 26 de janeiro de 91. Com a revelação da mulher do bicheiro, já há suspeitas de que os US$40 mil não seriam o dinheiro doado pela contravenção. "Como eles movimentam várias contas no exterior, procuraram o primeiro documento que mostrava US$40 mil e o apresentaram para acabar com a história. Como é que eles recebem em moeda nacional e o dinheiro aparece em dólar, sendo transferido de uma conta para outra?", indagou uma pessoa ligada a entidades envolvidas com a AIDS. A versão inicial era de que para proteger o dinheiro da inflação, os próprios bicheiros teriam feito o depósito em dólar no exterior. No documento exibido pela ABIA, no entanto, não aparece o nome do depositante. Na verdade, trata-se de uma operação entre bancos. Além da conta no Citibank, a ABIA tinha na época uma conta no Royal Bank do Canadá. É deste país que chega grande parte das doações de ONGs para manter o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), fundado e presidido por Betinho (JB).