BRASIL CONSEGUE ADIAR REFORMA INTERNA DO BID

O Brasil conseguiu evitar que a reforma administrativa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) fosse discutida na atual assembléia de governadores do organismo em Guadalajara (México), mas dificilmente vai impedir que ela se concretize até o fim do ano. A proposta, de inspiração dos EUA e acolhida pelo presidente do BID, Enrique Iglesias, extingue a gerência geral de operações e cria três diretorias regionais. A gerência geral de operações, que coordena a atuação de todos os setores do banco, permitia ao seu titular uma visão de conjunto das políticas adotadas e os critérios utilizados para a concessão de empréstimos. Quando a reforma for aprovada, esta visão de conjunto só a terão o presidente do BID e o seu vice-presidente executivo, hoje a norte-americana Nancy Birdsall. O cargo de gerente-geral de operações vinha sendo exercido pelo Brasil desde a fundação do BID-- aliás, uma idéia do então presidente Juscelino Jubitschek. Seu titular neste momento é o ex-reitor da Universidade Estadual de Campinas, Paulo Renato de Souza. A intenção de retirar o Brasil de um cargo tão importante no BID vinha sendo debatida internacionalmente desde outubro, quando, por sugestão do subsecretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, alguns governos chegaram à conclusão de que poderia ser seguido o esquema administrativo do Banco Mundial (BIRD), onde existem diretores regionais, com jurisdição somente para determinados grupos de países agrupados de acordo com sua situação geográfica, que respondem diretamente ao presidente. O Brasil, depois de intensas negociações, conseguiu que uma decisão sobre a reforma não fosse submetida à atual assembléia de governadores, o órgão máximo deliberativo do banco, mas fosse deixada a cargo da diretoria executiva, integrada por 12 membros (a atual assembléia decidirá também sobre o aumento dessas cadeiras para 13, com a inclusão do Japão, ou até para 14, com a entrega de mais um cargo de diretor a um país latino-americano). A posição brasileira é delicada, pois, abertamente, só a Venezuela se manifesta em favor da permanência do atual organograma. O México é o principal defensor da posição norte-americana e a Argentina-- cuja participação no capital do BID é igual à do Brasil-- tem uma posição não totalmente clara. O Chile aceita negociar se o Brasil empenhar-se para que esse país venha a ocupar uma décima quarta cadeira na diretoria. Os EUA foram o país mais atuante na reunião do BID, que começou ontem e deve terminar no próximo dia 11. Washington propôs a redução de sua própria participação no capital votante do banco, de 34,6% para 30%, cedendo espaço ao Japão. Os EUA defendem ainda uma nova política de empréstimo do BID aos países latino-americanos, voltada para prioridades sociais. O BID, que em 1993, em projetos destinados à chamada "área social", concentrou 31% dos US$6,1 bilhões de seus financiamentos, deverá agora aumentar para 50%, no mínimo, essa preocupação com créditos destinados a reduzir os níveis de pobreza e a proteger o meio ambiente. A assembléia de governadores do BID também deverá aprovar o aumento de capital do organismo de US$60 bilhões para US$100 bilhões (GM).