O procurador-geral da República, Aristides Junqueira, afirmou ontem que o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, não cometeu crime ao receber dinheiro do jogo-do-bicho para salvar as finanças da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA). "Receber dinheiro ilícito ou de jogo-do- bicho não constitui crime, isso fica no campo ético". Junqueira espera a remessa pela Procuradoria do Rio de Janeiro da documentação sobre o envolvimento de parlamentares e integrantes de tribunais superiores com o jogo-do-bicho para decidir se determina a abertura de inquérito policial ou ação penal contra os acusados. Sobre o dinheiro recebido por Betinho, o procurador-geral da República explicou que só pode ser considerado crime quando se trata de funcionário público e o dinheiro é fornecido em razão da função que a pessoa ocupa. Neste caso é corrupção passiva, afirmou. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Sepúlveda Pertence, também defendeu a conduta de Betinho. "As explicações já foram dadas com a lealdade e a correção de sempre por essa figura admirável da cidadania brasileira", afirmou, dizendo que aceita as justificativas do sociólogo "na integralidade de suas palavras". A solidariedade a Betinho: Jane Souto, chefe de gabinete da presidência do IBGE-- "Amigo, na terra do sol os caminhos de Deus e do Diabo podem até se cruzar, mas não se confundem. Carinho, respeito e um abraço". Veronese, artista plástico-- "Você conseguiu, ao seu modo, o que parecia impossível nesse país: uma pequena distribuição de renda. Você, com sua suposta fragilidade, conseguiu tirar dos poderosos uma fatia e canalizá-la para os que precisam, para aqueles que são as grandes vítimas desse nosso sistema criminoso e cruel. Com isso, você hoje conseguiu o que eu supunha impossível: aumentar ainda mais a minha admiração por você". Cristina Pereira, atriz-- "A tua sinceridade e integridade são uma lição para todos nós. Um abraço solidário". Sílvio Gomes de Almeida, presidente da ONG AS-PTA-- "Disparado na pole- position da cidadania. Você continua, com a coragem que é sua, o caminho da ética, transparência e dignidade". Amaral Netto, deputado federal do PPR-RJ-- "Aceite minha solidariedade e minhas felicitações pela posição humana e digna que você assumiu no problema da ABIA. A deterioração das lideranças nacionais leva muitas vezes homens como você a lançar mão de tudo o que possa ajudar as minorias carentes e abandonadas". Âmbar de Barros, da ONG ANDI-- "Só alguém com a grandeza e tua dignidade fariam o que você acaba de fazer. Toda a nossa força, amizade e admiração". Denise Paiva, assessora especial da Presidência da República-- "Sua atitude frente ao dinheiro dos bicheiros só faz reforçar a admiração que tenho pelo ser humano que você é. Conte com a minha incondicional solidariedade nesse episódio". Bolívar Lamounier, sociólogo-- "Sei que você não precisa disso. Nós estamos à sua disposição para qualquer manifestação pública em sua defesa que se fizer necessária". O escritor Alcione Araújo começou a recolher ontem assinaturas para um abaixo-assinado de artistas e intelectuais em desagravo a Betinho. O texto do documento critica a hipocrisia com que a sociedade trata os bicheiros. Também manifestaram solidariedade ao sociólogo, por fax e telefone, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que fez pronunciamento no Congresso Nacional; o sindicalista Vicentinho; o vereador Chico Alencar (PT-RJ); o presidente do Banco do Estado do Espírito Santo, Luiz Fernando Victor; o cantor Achiles Reis, do MPB-4; Jairo Coutinho, do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro; o presidente de Furnas, Marcelo Siqueira; a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro; o juiz da 2a. Vara de Menores, Siro Darlan; alunos da PUC-RJ; e outros. A seguir algumas opiniões sobre a atitude de Betinho: Carlos Eduardo Moreira Ferreira, presidente da FIESP-- "A atitude de Betinho tem um atenuante no Direito Criminal que é o estado de necessidade. É um erro aceitar dinheiro da contravenção, mas os detalhes têm que ser melhor apurados. Foi um ato de desespero de um aidético vendo colegas de infortúnio morrendo. Isso precisa ser levado em conta. Não se pode condenar quem fez isso num desespero. Não está certo receber dinheiro do bicho, mas a atitude de outras pessoas é mais grave". Aurea Celeste Abade, advogada e presidente do GAPA de São Paulo-- "Não sabemos ainda se o Betinho conhecia a origem da contribuição que recebeu. Se ele sabia que o dinheiro era ilícito, cometeu um erro político. A contribuição, naquele momento, trouxe um benefício para a entidade, mas a decisão precisava ser melhor pensada. De todo modo, não cabe a nós o julgamento desta atitude, principalmente pelo trabalho que o Betinho vem fazendo". Mauro Antonio Rodrigues Barbosa, diretor da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo-- "Conheço bem o Betinho. Tenho absoluta convicção de que isso não passa de um erro político de sua parte. Erro que ele teve a coragem e a honradez de reconhecer. Estou certo de que ele não tinha consciência da extensão dos fatos. Aceitou num gesto de absoluta necessidade para terceiros. O reconhecimento de seu erro é uma luz para uma sociedade hipócrita e cínica" (O Dia) (FSP) (O ESP) (JB).