Os livros-caixa do jogo-do-bicho que relacionam as propinas pagas a políticos, policiais, promotores, juízes e jornalistas registram mais três pagamentos ao governador do Rio de Janeiro, Nilo Batista (PDT), além dos US$58 mil que ele afirma ter recebido no mês de agosto de 1990 e repassado à Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA). O nome de Nilo aparece no topo da lista dos pagamentos dos bicheiros nos dois meses anteriores a agosto e no mês seguinte. Só em julho, por exemplo, ele teria recebido US$29 mil. Ontem o governador admitiu ter sido informado pelo procurador-geral de Justiça, Antônio Carlos Biscaia, de que seu nome aparece "duas ou três vezes" nos livros contábeis apreendidos pelo Ministério Público na fortaleza do "banqueiro" Castor de Andrade. Ele insistiu no argumento de que todos os lançamentos podem se referir ao pedido de contribuição que intermediou para a ABIA, embora o pagamento à associação tenha sido feito pela mulher do bicheiro Antônio Petrus Kalil, o "Turcão", Terezinha Kalil, apenas em agosto. A maioria dos políticos que teriam recebido dinheiro da contravenção é citada apenas pelas iniciais. Três deles, porém, estão identificados ao lado das primeiras letras de seus nomes: N. B. (Nilo Batista), J. H. (Jamil Haddad, deputado federal pelo PSB e ex-prefeito do Rio de Janeiro) e J. V. (José Vicente), provavelmente uma referência a José Vicente Brizola, filho do ex-governador Leonel Brizola. O procurador da República Cosme Ferreira denunciou Castor de Andrade e outros seis "banqueiros" do jogo-do-bicho do Rio à 13a. Vara Federal por sonegação fiscal. Eles podem ser condenados a até dois anos de cadeia por período de sonegação. Castor continuava ontem foragido. O presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargador Antônio Carlos Amorim, defende a criação paralela de uma nova polícia e a extinção gradativa do quadro atual. A mudança, segundo ele, seria feita da seguinte forma: os atuais policiais continuariam em suas funções o tempo suficiente para que a nova equipe pudesse assumir seus lugares. O governador Nilo Batista garantiu ontem que todos os policiais civis e militares que estão sendo investigados pelo Ministério Público por constar das listas de propinas dos bicheiros serão afastados de seus cargos. O deputado estadual Marcelo Dias (PT) solicitou anteontem à Mesa Diretora da Assembléia Legislativa a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o esquema de corrupção comandado pelo banqueiro Castor de Andrade. O vice-presidente da ALERJ, Hairson Monteiro (PPR), que confessou ser favorável à CPI, admitiu a possibilidade de a Mesa Diretora apressar a votação do requerimento, mas ressaltou que isto vai depender do presidente da ALERJ: "Existem outros pedidos de CPI em andamento e só o presidente José Nader pode decidir qual entrará em pauta primeiro", explicou. Sobre o governador Nilo Batista, que segundo o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, teria intermediado a doação de US$40 mil para a ABIA, Marcelo Dias disse que "pouco poderá ser feito", uma vez que, naquela época, Nilo não ocupava cargo público. Além de Dias, assinaram o requerimento da CPI os outros cinco integrantes da bancada do PT e a deputada Lúcia Souto (PPS) (O Globo) (JB).