BETINHO DIZ QUE AJUDA DO BICHO FOI ERRO POLÍTICO

O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, coordenador de duas campanhas de mobilização nacional, contra a fome e contra o desemprego, afirmou ontem que em 1990 aceitou US$40 mil do jogo-do-bicho para impedir que a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), da qual é presidente de honra, fechasse as portas. "Não fui enganado. Eu sabia que o dinheiro vinha do bicho, ponderei e aceitei. Com a experiência de hoje, reconheço que foi um erro político", afirmou. "Este foi o único dinheiro do bicho usado no combate à AIDS. Foi um erro em busca da vida", afirmou. Em entrevista coletiva na sede do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), em Botafogo, no Rio de Janeiro (capital), Betinho contou que, no início de 1990, foi procurado pelo então diretor da ABIA, Herbert Daniel (morto em março de 1992, vítima da AIDS), que alegava não ter dinheiro para pagar os 26 funcionários e a confecção de panfletos e cartazes para as campanhas de prevenção e controle da doença. Betinho procurou o atual governador do Rio de Janeiro, Nilo Batista (PDT)-- membro do conselho consultivo da ABIA e que na época não tinha cargo público--, para pedir ajuda financeira. Ele tinha esperança de que Nilo pudesse tirar o dinheiro do próprio bolso, já que se tratava de um criminalista famoso. Nilo tinha acabado de se separar de sua primeira mulher e alegou que atravessava uma crise financeira. Não me lembro exatamente quem sugeriu que procurássemos o jogo-do-bicho.
79205 Me disseram que fui eu. Não importa agora. O que interessa é que fui eu
79205 que decidi que a ABIA aceitaria esse dinheiro, revelou. Ele garantiu que, na época, não tinha "nível de informação suficiente" para relacionar o jogo-do-bicho ao tráfico de drogas. "Se fizesse a relação, claro que não aceitaria a ajuda". Betinho contou que diretores da ABIA fizeram "reuniões exaustivas" para estudar uma forma de buscar dinheiro junto a empresários. Mas nenhuma empresa queria ter seu nome associado à AIDS. Além disso, a crise aconteceu logo depois do Plano Collor e as entidades estavam com o dinheiro retido nos bancos. "As pessoas continuam morrendo de AIDS e os governantes ignoram isso. Perdi dois irmãos em três meses. Eu era radical em relação à AIDS, achava que era preciso fazer aliança com Deus e o Diabo para impedir o avanço da doença. Mas, se pudesse voltar no tempo, teria feito diferente", contou. Ele acredita que a campanha contra a fome não será prejudicada. "Não existe ninguém santo, acima de qualquer suspeita ou unanimidade nacional", acrescentou. Betinho disse que a decisão de falar foi motivada pelo desejo de não repetir o comportamento de outros beneficiários de doações do bicho, que negam o recebimento do dinheiro. "Quero morrer em paz com a minha consciência", disse. Betinho apelou aos demais envolvidos que não se aproveitem do seu problema para justificar o dinheiro que receberam. "Não façam isso, porque não pretendo ser justificativa para ninguém", afirmou. Ao lembrar que a primeira atitude de uma pessoa pública flagrada em um erro no Brasil é negar tudo, Betinho disse que seria desastroso se resolvesse fazer o mesmo. Ele frisou que, ao contrário dos demais, sua atitude foi tomada em defesa da vida e não de interesses pessoais ou políticos. A doação dos US$40 mil teria sido acertada em um chá na casa de Nilo Batista, com a presença de Terezinha Petrus Kalil, mulher do bicheiro Antônio Petrus Kalil, o "Turcão", responsável pela ajuda. O dinheiro, segundo Betinho, serviu para pagar os salários atrasados dos funcionários da ABIA e financiar as campanhas contra a AIDS promovidas pela entidade. REPERCUSSA~O: Gerd Bornheim (filósofo)-- "Discordo dos métodos adotados por Betinho. Mas a pessoa dele é intocável". Kleidir (cantor)-- "Betinho é inatacável. Não acho legal que dinheiro ilícito, do crime organizado, seja usado em campanhas filantrópicas. Mas ainda assim é muito melhor que seja usado no combate à AIDS do que para corromper políticos". Leandro Konder (filósofo)-- "O que ele faz é tão importante que não se pode descriminar de onde vem o dinheiro. E o fato de alguém aceitar dinheiro de contraventores para uma campanha humanitária não significa cumplicidade com os criminososo". Ricardo Cravo Albim (pesquisador cultural)-- "Em qualquer lugar do mundo, a captação de dinheiro ilícito é ato criminoso. No entanto, o estado de descalabro no Brasil, as acomodações sociais inesperadas e a miséria me fazem pensar sobre a ética desejável e a sobrevivência das pessoas. Assim, se é indesejável e criminoso por um lado, por outro é justificável. É um crime que teria muitos atenuantes". Ana Durães (escultora)-- "Eticamente não é correto receber dinheiro do crime organizado, mas é melhor que este dinheiro vá parar nas contas de entidades humanitárias do que ajude a enriquecer canalhas". Sérgio Britto (ator e diretor)-- "Não vejo mal algum se os bicheiros dão dinheiro para as campanhas do Betinho. Este dinheiro não terá qualquer destinação questionável. Conto uma experiência pessoal: quando dirigia o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) e o Collor parou de repassar dinheiro, salvamos os espetáculos vendendo assinaturas. Fui até o Castor e ele comprou 20 assinaturas". Roberto Magalhães (escultor)-- "Acho válido qualquer tipo de caridade. Não cabe julgar de onde vem o dinheiro, quem pode ou não doá-lo" (JB) (O ESP) (FSP) (O Globo) (O Dia).