POLÍTICOS DO BICHO SOFRERÃO DEVASSA

O procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Antônio Carlos Biscaia, vai pedir a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico dos políticos e policiais civis e militares cujos nomes figuram como beneficiários de propinas do jogo-do-bicho nos livros-caixa e disquetes de computador apreendidos, no último dia 30, em escritórios do bicheiro Castor de Andrade. O chefe de gabinete do procurador, promotor Antônio José Campos Moreira, disse que existem indícios do envolvimento também de juízes e até de membros do Ministério Público, que conduz as investigações. O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (PMDB), afirmou que a inclusão de seu nome na lista dos que receberam dinheiro do bicho "é uma irresponsabilidade". Ele disse que irá processar o Ministério Público. Fonte próxima do prefeito confirma, contudo, que ele recebeu ajuda para a campanha eleitoral. Mais um parlamentar, o deputado estadual Wagner Montes (PPR), admitiu haver recebido apoio do crime organizado nas eleições. Ele recebeu camisetas e adesivos de Aniz Abrão David, o "Anísio". Além dele, o ex-deputado federal Agnaldo Timóteo e a atual deputada federal Cidinha Campos (PDT-RJ) confirmaram o recebimento de dinheiro de Castor de Andrade. Cidinha contou que os bicheiros faziam doações a seus programas de rádio, e que recebeu "muito mais de US$7.000". Um item na contabilidade dos bicheiros aponta o pagamento de US$7.000 para uma ex-amiga da juíza Denise Frossard, que condenou os "banqueiros". A informação confirma comentários que circulavam no Fórum: uma amiga da juíza a teria procurado para oferecer suborno em nome de Castor de Andrade. Foi rechaçada e perdeu a amizade da juíza. "Só os amigos traem", constumava dizer Frossard na época. Quanto aos políticos que teriam recebido dinheiro dos bicheiros, só a Procuradoria Geral da República poderá pedir a quebra do sigilo bancário. Os promotores pedirão auxílio a representantes da Procuradoria no Rio de Janeiro. A apreensão de disquetes de computador com listas de propinas levou à descoberta de que os contraventores pagavam às delegacias até para prestar depoimento. Dos registros contábeis consta o pagamento de US$5.000 à Divisão de Repressão a Entorpecentes (DRE) para que o "banqueiro" José Petrus, o "Zinho", prestasse um depoimento favorável à sua defesa, no inquérito sobre o envolvimento de bicheiros com o tráfico de drogas. Os valores dos pagamentos mostram a importância de cada setor da polícia para os bicheiros: a DRE, encarregada de reprimir o tráfico, recebia mais dinheiro do que a Delegacia de Defraudações, cuja função é combater o jogo-do-bicho . O governador Leonel Brizola (PDT) acredita que o aparecimento dos livros- caixa nada mais é do que "uma armação". "Trata-se de uma lista suja de um bicheiro que não tem credibilidade. Não é outra coisa senão uma armação, uma vingança de Castor de Andrade, que agora está solto e quer despejar toda a sua ira naqueles que o enfrentam", afirmou. O bicheiro Castor de Andrade abandonou sua mansão, na Ilha Grande, no último dia 31, um dia depois da devassa feita pelo Ministério Público em seus escritórios. Segundo vizinhos, ele deixou o sítio a bordo de uma lancha e acompanhado de seguranças (JB) (O Globo).