Nomes de políticos, policias civis e militares e profissionais de imprensa, ao lado de quantias que eles teriam recebido, estão gravados nos disquetes de computador encontrados anteontem pelos agentes do Serviço Reservado da Polícia Militar e pelos promotores públicos na fortaleza do banqueiro do jogo-do-bicho Castor de Andrade, em Bangu, zona norte do Rio de Janeiro (capital). O vice-governador Nilo Batista (PDT) encabeça a lista de políticos que, durante a campanha eleitoral de 1990, teriam recebido ajuda financeira dos "banqueiros" de bicho. Também consta o nome do prefeito César Maia (PMDB), que teria recebido US$100 mil para sua campanha. É sabido que os bicheiros têm uma bancada na Câmara de Vereadores, na
79101 Assembléia Legislativa e na Câmara dos Deputados, disse o procurador- geral de Justiça do Rio de Janeiro, Antônio Carlos Biscaia. Segundo ele, a caixinha do jogo-do-bicho não segue nenhuma ideologia política: parlamentares de esquerda, de centro ou de direita recorriam à contravenção atrás de fundos para as campanhas. Biscaia revelou que na listagem observou a presença de políticos de todos os partidos à exceção do Partido dos Trabalhadores (PT). No entanto, com a divulgação constantes nos disquetes apreendidos, novos nomes deverão surgir. Os registros mostram ainda a participação efetiva da contravenção na manutenção de carros da Polícia, obras em delegacias e pagamento de gratificações a policiais. Delegados, coronéis da PM e quase toda a cúpula da Polícia Civil participavam da "caixinha" da contravenção, de acordo com os documentos. São citados os nomes do repórter Nélio Bilat e do comentarista esportivo Washington Rodrigues, além da Confraria do Garoto. Os documentos revelam ainda as quantias rateadas em todas as delegacias especializadas, quartéis e delegacias de bairros. Estão registrados também os pagamentos de propinas avulsas, doações a entidades filantrópicas e toda a arrecadação e gastos com o jogo-do-bicho. De acordo com a avaliação do promotor Antônio José Moreira, assessor do procurador-geral de Justiça, o pagamento de propinas a policiais, políticos e jornalistas soma no mínimo US$1 milhão (cerca de CR$865 milhões). Ele ressalvou, porém, que este valor deverá se mostrar ainda mais elevado à medida que os disquetes de computador apreendidos pelo Ministério Público e todo o material contábil forem analisados. Os disquetes revelam quem recebeu o dinheiro e as quantias pagas pela contravenção, além da remessa de dólares para o exterior. Em janeiro de 1993, por exemplo, Castor de Andrade depositou na Associação de Bancos Suíços US$497.500,00. O material contábil apreendido contém pagamentos desde 1979. O procurador-geral de Justiça, Antônio Carlos Biscaia, disse que Castor de Andrade pode ir novamente para a prisão, por corrupção ativa, contrabando e formação de quadrilha. Em nota oficial, o vice-governador Nilo Batista afirma que seu nome deve ter sido usado. Já o ex-superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, delegado Édson de Oliveira-- ele será candidato a deptudo federal--, acredita que seu nome nos livros da propina do jogo-do-bicho foi "plantado" e pediu ao diretor da PF, Wilson Romão, que designe um delegado-- de fora do Rio-- para apurar o caso através de uma sindicância interna. Biscaia inocentou o diretor do Departamento Geral de Polícia do Interior (DGPI), delegado Mário Covas, que teve seu nome citado uma única vez, em novembro de 1993, como tendo recebido US$7.000 dos bicheiros. "Ele fingiu que aceitaria o dinheiro justamente para poder dar o flagrante", explicou. A operação do Ministério Público e da PM paralisou o jogo-do-bicho em vários estados, pois um dos escritórios "estourados" funcionava como descarga de apostas para bicheiros do resto do país (O Globo) (JB).