BRASIL FAZ 1,4 MILHÃO DE ABORTOS ANUAIS

O aborto clandestino tem sido um dos instrumentos mais importantes de planejamento familiar na América Latina, onde são praticadas, por ano, mais de quatro milhões de interrupções voluntárias da gravidez. Destas, 1,4 milhão, ou 35% do total, ocorrem no Brasil. A conclusão é de um estudo sobre a prática do aborto em seis países latino-americanos-- Peru, Colômbia, México, Chile e República Dominicana, além do Brasil--, publicado pelo Instituto AlanGuttmacher, de Nova Iorque (EUA), instituição sem fins lucrativos, fundada há 25 anos e dedicada a estudos e pesquisas sobre saúde reprodutiva, análise de políticas e educação pública. O estudo completo-- de autoria de Susheela Sigh e Deirdre Wulf-- baseou-se em dados primários fornecidos por 197 pesquisadores (46 de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Recife), inclusive de instituições governamentais dos seis países. Sua liberação em português será em 31 de maio, pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), no Rio de Janeiro. A cada ano, cerca de 2,8 milhões de abortos são feitos nos seis países e 550 mil mulheres (228,2 mil, no Brasil) são hospitalizadas por complicações decorrentes do aborto induzido (em toda a América Latina, esse número atinge 800 mil). Cerca de um terço das hospitalizadas são mulheres pobres da cidade e do campo. As mulheres abastadas das áreas urbanas e rurais são as que menos utilizam os serviços hospitalares. O Brasil, entretanto, apresenta uma taxa mais alta de complicações em decorrência do aborto, mesmo entre mulheres de classe média e alta. A explicação é que 19% dessas mulheres ainda recorrem a pessoas inexperientes ou tentam, elas próprias, induzir o aborto. O estudo constatou que, na última década, mudaram as condições para a interrupção da gravidez, embora seu status de ilegalidade não tenha, praticamente, sofrido alterações. O risco diminuiu, pelo fato de um número cada vez maior de médicos e enfermeiras, frequ"entemente, em clínicas particulares, terem se tornado provedores dos serviços de aborto, ao mesmo tempo em que as mulheres ficaram mais conscientes das vantagens do uso de antibióticos para evitar sequelas. Houve também, especialmente no Brasil, um aumento da utilização do misoprostol, uma droga abortiva (potencialmente perigosa pelo sangramento excessivo que pode provocar). O Brasil tem a quarta maior taxa de abortos entre os seis países analisados, colocando-se depois de Peru, Chile e República Dominicana. Cerca de 53,8% das gestações no Brasil são indesejadas, mas 23,1% delas chegam ao final, com o nascimento de bebês. O uso da pílula anticoncepcional não é muito popular entre brasileiras, colombianas e dominicanas pelo temor aos efeitos colaterais: apenas de 6% a 17% das mulheres fazem uso dela. O estudo conclui que é grande e crescente a demanda por orientação para o planejamento familiar entre as mulheres latino-americanas e que o problema não tem recebido a atenção que mereceria por parte dos governos. As políticas massivas de esterilização podem não ser eficazes, segundo o estudo, porque, muitas vezes, as famílias preferem atenção personalizada. O PERFIL NA AMÉRICA LATINA: 1) Brasil (1991) - Índice de abortos em mil mulheres entre 15 e 49 anos (38,1%) - Número de abordos induzidos (1.443.339). 2) Chile (1990) - respectivamente 45,4% e 159.644. 3) Colômbia (1989) - 33,7% e 288.395. 4) República Dominicana (1992) - 43,7% e 82.489. 5) México (1990) - 23,3% e 533.098. 6) Peru (1989) - 51,8% e 271.162. MULHERES HOSPITALIZADAS: 1) Brasil (1991) - 288.668 internações; 2) México (1989-1991), respectimente 106.620; 3) Colômbia (1989), 57.679; 4) Peru (1989), 54.232; 5) Chile (1990), 31.929; e 6) República Dominicana (1992), 16.498 (JB).