André, Maurício, Marco Antônio, Marcelo, Pedro Paulo. São as muitas caras do exército de operários do futuro que fez uma viagem no túnel do tempo e chega às ruas com 10 anos de antecedência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 4,7% das crianças do Rio de Janeiro (RJ) entre 10 e 13 anos-- cerca de 42 mil ao todo-- deixam as escolas para ingressar precocemente no mercado de trabalho. Todo dia elas fazem tudo sempre igual. Acordam muito cedo e, em trens e ônibus lotados, viajam nas estatísticas oficiais para desembarcar na estação subemprego. Essas crianças debutam muito cedo numa relação de trabalho chamada informal, mas que na prática não podia ser mais formal. Não têm carteira assinada, mas têm um patrão no pé. Não recebem salário, mas o pouco certo no final do mês não falta. E ai daqueles que ficarem doentes e não se explicarem: podem conhecer o desemprego tão rápido quanto o emprego. Sem direito a seguro, benefício reservado apenas àqueles que estão dentro da lei-- os mais velhos, é claro. Como este não é o caso, fica o não dito pelo não dito mesmo. Aí, aprendem que a expressão correr atrás não tem nada a ver com uma brincadeira de pique. Precisam rápido de um outro trabalho para ajudar os pais a alimentarem as muitas bocas da família. O que assistimos hoje é a expressão mais profunda e escandalosa do grau
78976 de indigência a que chegamos neste país, diz o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, articulador nacional da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, que encomendou a pesquisa ao IBGE para integrar o Mapa do Mercado de Trabalho no Brasil. "As crianças são as principais vítimas disso, diante de uma sociedade passiva. Precisamos de uma nova consciência, pois não podemos nos adaptar a essa situação que é inadmissível. Isso não é nem a ponta de um iceberg, mas o fim da linha", afirma Betinho. O desrespeito ao artigo 60 do Estatuto da Criança e do Adolescente-- que só admite crianças trabalhando como aprendiz-- ameaça sepultar um futuro feliz para menores que hoje estão longe de embalar um sonho infantil (O Globo).