O ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, e o presidente do Banco Central, Pedro Malan, confirmaram ontem pela primeira vez, durante depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal, que o BC fez, a partir de novembro do ano passado, operações secretas de compra de títulos, no total de US$2,8 bilhões, a serem usados como garantia do acordo com os bancos credores estrangeiros. Segundo o ministro, o sigilo absoluto em torno das operações deveu-se à necessidade de "proteger o país contra os especuladores". Malan, que sugeriu a compra dos títulos a Cardoso, explicou aos senadores que o governo achou melhor precaver-se contra uma eventual negativa do Tesouro norte-americano em fazer uma emissão especial de títulos para o Brasil-- o que acabou ocorrendo. O Senado, co-responsável pela negociação da dívida externa, não foi informado das operações do BC no mercado secundário internacional. Segundo Cardoso, apenas ele, Malan e o diretor de Assuntos Internacionais do BC, Gustavo Franco, sabiam da estratégia de "hedge" (proteção). O ministro não disse e não foi perguntado se o presidente Itamar Franco foi informado da compra secreta de garantias. Para o senador José Fogaça (PMDB-RS), relator da Resolução no. 96 que ratificou os termos do acordo, a compra secreta não fere a orientação do Senado. Segundo Malan, o acordo aprovado pelos senadores não obrigava à emissão especial do Tesouro dos EUA. Malan classificou de "pura especulação" as estimativas de que o BC gastou entre US$60 milhões e US$68 milhões a mais comprando as garantias diretamente no mercado. Segundo ele, os especuladores não detectaram a tempo a ação do BC. De qualquer forma, Malan considera mais importante que a estratégia tenha tornado viável o acordo. Ele esclareceu que, sem o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Tesouro norte-americano não fará a emissão especial (O ESP).