Os sete países mais ricos do mundo-- EUA, Alemanha, Japão, Canadá, França, Itália e Inglaterra-- produzem juntos uma riqueza de mais de US$10 trilhões a cada ano e contam entre sua população 23 milhões de desempregados. O Brasil gera, a cada ano, um Produto Interno Bruto (PIB) de US$450 bilhões, mas tem conta muito mais pesada a pagar com sua população. Há no país 10,5 milhões de pessoas à procura de um emprego. Somadas ao restante dos trabalhadores subempregados e às crianças que deveriam estar na escola e brincando, a dívida social do Brasil aumenta para mais de 20 milhões. A produção industrial brasileira cresceu quase 11% em 1993, contra um crescimento do emprego inferior a 1%. Esses dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o Brasil segue o mesmo perigoso caminho que trilharam os países industrializados: o crescimento da economia não gera novos empregos, as novas tecnologias tiram postos de trabalho e o Estado é incapaz de arcar com uma política eficiente de seguro-desemprego. O problema da geração de emprego tornou-se tão sério que, pela primeira vez, esse assunto entrou na pauta dos ministros de Economia dos países ricos. Nos dias 14 e 15 passados, esses homens se reuniram para discutir o que fazer nas suas sociedades onde a modernização das indústrias tem excluído cada vez mais trabalhadores do processo produtivo. Apenas no Mercado Comum Europeu, a taxa de desemprego já atinge 12% da população economicamente ativa, mas em alguns países ela chega a 22%, como na Espanha. Nos últimos 20 anos, a Espanha cresceu 100%, mas o emprego diminuiu 2%. A situação semelhante ocorreu na Itália, com crescimento de 84% e elevação do emprego de apenas 8%. Também repetiu-se na França, Alemanha, Inglaterra e demais países desenvolvidos. Se a situação dos países ricos já faz o presidente dos EUA, Bill Clinton, participar de uma conferência sobre o futuro do emprego, e empresas e trabalhadores discutem redução de jornada, como fez a Volkswagem alemã, no Brasil essa cruzada ainda depende dos movimentos da sociedade civil e das discuss~es sindicais. Ao mesmo tempo em que a geração de empregos foi eleita o tema central da segunda fase da campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida liderada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, o movimento sindical dá sinais de maturidade e avança em novas propostas. Além de reforçar a tese de que a redução da jornada de trabalho é fundamental para a geração de novos empregos, sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical e Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) concluíram após dois dias de debates, semana passada, em São Paulo, que "é preciso direcionar recursos com potencial para geração de novos empregos, como a construção civil, a educação, a saúde e, também, apoiar iniciativas das prefeituras", segundo José Caetano Lavorato, da direção executiva do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE). Um dado apresentado aos sindicalistas durante esse encontro foi fundamental: de 1980 a 1992 inverteu-se a localização dos empregos. Em 1980, as grandes empresas eram responsáveis por 55% do emprego no país e as pequenas por somente 10%. Em 1992, as grandes empregavam 35% do total e a participação das empresas com até 10 funcionários cresceu para 24%. "A busca de mais competitividade eliminou postos de trabalho nas grandes companhias", explica Sérgio Mendonça, diretor-técnico do DIEESE. O economista Luciano Coutinho, da Universidade de Campinas (Unicamp), aponta alguns mercados para a criação de novos empregos: construção civil, com programas de casas populares; turismo, serviços pessoais e novos serviços ligados à indústria. Para ele, outro elemento também é fundamental: "Retardar a entrada no mercado de trabalho". No Brasil quase nove milhões de crianças de 10 a 13 anos já estão trabalhando (JB).