Há uma rede de meninas prostituídas em São Paulo utilizadas para vender drogas. Viciadas, elas recebem seu pagamento em crack (droga derivada e mais perigosa que a cocaína). As pessoas que tentam ajudá-las, em particular de movimento ligados à Igreja Católica, correm perigo e são frequentemente ameaçados de morte. São Paulo reproduz esquema semelhante do garimpo da Amazônia, onde é prática comum a escravização de meninas. Na Amazônia, elas também são utilizadas por traficantes de drogas-- lá existe proximidade com os centros produtores de cocaína. Essas revelações fazem parte da maior investigação já produzida no país sobre prostituição infantil, comandada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso Nacional. A CPI é presidida pela deputada Marilu Guimarães (PFL-MS) e o relator é o deputado Moroni Torgan (PSDB- CE). Depois de nove meses de depoimentos e viagens, esta semana será apresentado à CPI o diagnóstico e as recomendações. Constatou-se que meninas de oito anos já estão vendendo o corpo. Uma das causas da prostituição infantil, segundo a CPI, é a desagregação familiar-- a violência dentro de casa que expulsa a criança para a rua. A CPI levantou dados em São Paulo e apontou que ocorrem casos de incesto em meninas de até cinco anos. A Secretaria Estadual do Bem-Estar Social produziu documento indicando abusos sexuais até em bebês. A CPI não está apenas preocupada em identificar o problema da prostituição infanto-juvenil, mas em buscar soluções e reconhece que não existem saídas de curto prazo. No relatório são feitas algumas propostas: -- A ampliação de programas de saúde destinados a todas as meninas, visando melhor conhecimento do próprio corpo, métodos anticoncepcionais naturais e artificiais. -- promover políticas que assegurem à família a possibilidade de se manter agregada, com os adultos tendo condições de se responsabilizar pela manutenção dos jovens. -- promover programas de treinamento de profissionais de saúde dos órgãos policiais. -- Modificar a ênfase da divulgação do Brasil no exterior, tirando o sexo como atrativo. -- aplicar programa específico de emprego para absorver as meninas prostituídas no mercado de trabalho. -- Ampliar as casas-abrigo para atendimento emergencial, onde as meninas receberão vários tipos tratamento. -- O governo deve usar seus institutos de pesquisa, como o IBGE, para quantificar com maior precisão o número de meninas prostitutas ou de rua. No Rio de Janeiro, a CPI acabou se deparando com a prostituição de meninos, denunciada pelo Núcleo de Orientação e Saúde Social. Estão envolvidos meninos de até 11 anos de idade. "Vários deles são encaminhados à prostituição pelos próprios parentes", indica o texto da CPI. No Nordeste é apresentado como cenário do chamado "pornoturismo". Destacam-se, nesse comércio, suíços, franceses e alemães. "Há uma organização por trás disso", afirma o texto. Segundo a CPI, vendem-se pacotes turísticos na Alemanha que incluiriam uma passagem para o Brasil-- e duas de volta. A passagem extra seria para levar uma prostituta (FSP).