CRIAR EMPREGOS É FATOR BÁSICO PARA RETOMADA DA ECONOMIA

Abrir novos empregos no país não é só uma questão social. É uma urgência para a retomada da economia, para ampliar mercado. A frase poderia ser de um empresário, de um economista brasileiro, até mesmo de Kenneth Clark, chanceler britânico preocupado com o problema do desemprego na Europa e que prevê a discussão como centro das preocupações das sete nações mais ricas do planeta até o final da década. Mas a análise é do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que movimentou o país nos últimos meses com a campanha contra a fome e que lançou no começo do mês um movimento pela criação de empregos. Com o mapa do desemprego em mãos, Betinho repete os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que refletem "a dura realidade do país": há quatro anos, 30,8% das pessoas economicamente ativas estavam desocupadas, ocupadas sem rendimentos ou ganhavam menos de um salário- mínimo por mês. "Pior: 0,8% do total da renda do país é destinada a 10% da população, que recebe menos de um salário-mínimo". Traduzindo os índices, o Brasil abriga um total de 20 milhões de desempregados, equivalente a um terço da população da França, metade da Espanha e quase o dobro da nação portuguesa. "Está provado, mesmo entre as nações do Primeiro Mundo, que manter um banco de desnutridos e subempregados dá prejuízo", comenta Betinho, ao analisar cartas de apoio enviadas ao Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), em Botafogo, Rio de Janeiro (capital), sede do movimento. Um desses documentos era do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), oferecendo apoio. "Aceitamos", sintetiza Betinho. "O SEBRAE é uma das maiores forças com que contamos", disse. Uma das estratégias adotadas pela coordenação da campanha contra o desemprego está ligada ao SEBRAE. "É que, sem dúvida, a recuperação do nível de emprego no país está diretamente relacionada à atuação das micro e pequenas empresas", justifica Betinho. As últimas estatísticas do SEBRAE, amparadas em trabalhos do IBGE, revelam que 59% da mão-de-obra do país liga-se às atividades das pequenas e micro empresas. "Essa realidade nos empurrou, naturalmente, para a campanha montada por Betinho", comenta Luís Alberto Bettencourt, um dos consultores do SEBRAE e articulador da parceria com o IBASE. Na verdade, antes de Betinho lançar seu movimento o SEBRAE já havia definido o slogan da campanha da entidade para 1994: "Pequena empresa. Dê força a quem dá emprego". Com 500 postos de atendimento em todo o país, interligados por terminais de computação, o SEBRAE fez uma parceria com o IBASE ao colocar à disposição de Betinho e seus auxiliares o banco de dados que reúne as iniciativas de pequenas empresas em todo o Brasil. "Temos condições de informar onde surgem ofertas de trabalho e em que setor, em várias regiões do país", assinala Sérgio Cross, assessor da presidência do SEBRAE. Amparado pelo SEBRAE, por instituições financeiras e contando com apoio de entidades de calsse, sindicatos, empresas de todo o país, além de governos e prefeituras, o IBASE monta todo dia um imenso quadro de ofertas de empregos e iniciativas que favorece a colocação de mão-de-obra qualificada ou não. "A tarefa é gigantesca, mas não está faltando o fundamental: apoio", comenta Betinho. Plano de governo-- No começo da semana, outro apoio ao movimento contra o desemprego partiu do próprio governo. "Ainda é um plano , mas poderá ajudar muito se for bem realizado", prevê Sérgio Cross. É que o ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, encomendou ao presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Pérsio Arida, um programa para criar empregos e promover a distribuição de renda. Um dos pontos deste programa trata de investimentos específicos para ajudar o desenvolvimento de pequenas empresas. A seguir, algumas das iniciativas dos comitês da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida instalados em várias regiões do país, que empregam ou vão empregar mão-de-obra local. Horta na Paraíba-- O comitê de Areia (PB) desenvolveu uma horta comunitária no campus da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que cedeu um hectare para a implantação do projeto. Das 200 famílias que vivem em situação de miséria, 21 trabalham de segunda a sexta, recebendo alimentos e CR$2,5 mil por semana. A UFPB presta assistência técnica para o cultivo e as famílias vendem os produtos numa feira no centro da cidade. Além disso, em convênio com a Secretaria Estadual do Trabalho e da Ação Social, o comitê mantém um projeto de corte e costura que, com a doação de oito máquinas, já conta com 14 mães carentes que confeccionam e vendem roupas nas feiras. Mutirão em Minas Gerais-- A Frente de Trabalho em Ponte Nova (MG) conseguiu dar emprego a 145 pessoas em sistema de rodízio, beneficiando 400 famílias. A cada mês, são arrecadados 111 salários-mínimos entre 130 empresários, sindicalistas, lojistas e profissionais liberais da cidade. Cada frentista recebe CR$4,5 mil por semana para fabricar tijolos, sabão e trabalhar em reformas de casas (O ESP).