Está é a primeira vez que um programa de ajuste econômico brasileiro está apoiado por um consenso político entre os principais atores, incluindo os ricos. Só será bem-sucedido, contudo, se a sociedade acreditar que o governo manterá seu rumo contra a inflação, em cada etapa do programa, mesmo que isso exija medidas difíceis e politicamente impopulares. Não é difícil derrubar a inflação, o que é difícil é sustentar os
78755 progressos em direção à estabilização dos preços, argumenta Shahid Javed Burki, o economista paquistanês que assumiu, há dois meses, o cargo estratégico de vice-presidente para a América Latina e o Caribe do Banco Mundial (BIRD). Antes de ser nomeado para a América Latina, Burki dirigiu, de 1987 a 1993, o departamento do BIRD que cuida da China e da Mongólia. Ele vê com um aguçado senso crítico o recente progresso econômico latino-americano. "Vim para a América Latina achando que veria muita melhoria da situação econômica", diz. "Descobri que a América Latina tem ainda um longo caminho pela frente antes que possamos dizer que um desenvolvimento sustentável é possível no continente". Existem, a seu ver, enormes diferenças em relação ao que aconteceu com os países asiáticos. A América Latina tem uma enorme dívida a saldar em termos de desenvolvimento humano e social e da infra-estrutura. "Houve uma piora na área social", constata Burki. Ao contrário da Ásia, a taxa de poupança interna latino-americana é baixa, existe uma forte dependência externa para os investimentos e o retorno produtivo sobre o capital é muitas vezes menor do que o dos países emergentes asiáticos. O salto adiante depende da volta ao que o desenvolvimento significa: melhora na infra-estrutura,
78755 nos recursos humanos, nas instituições, preservando o meio ambiente. Essas são as quatro áreas prioritárias de ação do BIRD na região. De sua experiência asiática, Burki trouxe também a convicção de que o desenvolvimento depende de um Estado forte. Por quatro razões: 1) Só o Estado pode assegurar que os pobres terão os serviços necessários; 2) O Estado Central deve manejar a política fiscal e monetária; 3) Por seu papel regulador: "O setor privado trabalha por lucro, o Estado pelo bem- estar e é preciso assegurar que a busca do lucro não colocará em risco o bem-estar"; e 4) Só um Estado forte é capaz de liberar as relações externas (acima dos interesses particulares) e, por exemplo, baixar tarifas. Estado forte, contudo, "não quer dizer Estado intervencionista". Nos seus contatos no Brasil, Burki ouviu um apoio otimista de empresários ao plano de ajuste e algumas fortes advertências críticas de economistas como Affonso Celso Pastore. Ele disse, porém que o BIRD ainda não tem uma visão definitiva sobre a consistência fiscal do plano. Existem US$5,6 bilhões de empréstimos aprovados pelo Banco Mundial que nunca foram desembolsados. É um dinheiro disponível, a maioria concentrado nas áreas agrícola, de suprimento de água, transportes e educação, sobre os quais o Brasil paga taxas mas que não chega a seu destino. Burki disse que a situação existe por duas razões principais. De um lado, as restrições orçamentárias têm impedido que o Brasil aplique a contrapartida necessária em cruzeiros reais em alguns projetos. Outra razão é a diferença entre a lei brasileira de licitações e as exigências do BIRD nessa área. O ministro do Planejamento, Beni Veras, disse a Burki que está sendo feito um esforço para acomodar as diferenças no caso das regras para licitações. O problema dos recursos não desembolsados se arrasta por anos sem solução. Veras prometeu que tentará enfrentar essa questão de forma prioritária (GM).