Engenheiros transformados em lavadores de carros ou vendedores ambulantes, professores em cozinheiros, motoristas de táxi ilegais ou empregados do setor hoteleiro reservado ao turismo estrangeiro. Cada vez mais os cubanos trocam seu trabalho qualificado, remunerado em moeda nacional, por modestas atividades que lhes permitam ganhar em dólar. Sete meses depois de autorização dada aos cubanos de possuir divisas estrangeiras, entre elas o dólar norte-americano, a metamorfose social consecutiva à dolarização da economia afeta um crescente setor da produção ativa. Em um dia de trabalho, ganho mais do que meu salário mensal de antes,
78707 pago em pesos, comenta Roberto, um técnico em informática de aproximadamente 40 anos, que afirma ganhar por dia entre US$5 e US$10 lavando os carros dos estrangeiros em Havana. Os 300 pesos que ganhava até há pouco tempo equivalem atualmente a um pouco mais de US$3 no câmbio paralelo-- no mercado oficial, o valor equivale a US$1--, verdadeiro indicador da economia atual, enquanto que o excedente da massa monetária é estimado em cerca de 11 bilhões de pesos, acentuando a desvalorização da moeda nacional. Hoje, o salário médio mensal de 180 a 200 pesos oferece uma capacidade de compra irrisória no mercado paralelo, ao qual a maioria da população recorre devido à escassez generalizada no mercado oficial: uma lata de óleo vale 140 pesos e meio quilo de café custa 50 pesos. O desinteresse pelos empregos remunerados em moeda nacional se ampliou com a autorização do trabalho por conta própria outorgada em setembro passado a mais de 130 profissionais. Cerca de 150 mil pedidos, provenientes principalmente de artesões e de pessoas exercendo pequenos ofícios, já foram aceitos. As autoridades, preocupadas com um eventual êxodo interno da elite formada pela Revolução, proibiram entretanto o trabalho por conta própria a várias categorias profissionais, como os chefes de empresas estatais, médicos, maestros, professores e investigadores. Também tentam controlar os empregos não declarados, os pequenos comércios e serviços ilegais que entram na concorrência comercial com o Estado que deve se reservar ao monopólio, segundo o presidente Fidel Castro (JC).