BETINHO LANÇA O DESAFIO DO EMPREGO DIGNO

O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, líder da campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, se lançou ontem ao seu mais novo desafio: acabar com o desemprego, o subemprego e as péssimas condições de trabalho no país. Na palavras de Betinho, a campanha contra o desemprego não passa da continuação da luta contra a escravidão no Brasil. Sua principal arma nesta briga foi mostrada ontem, no Rio de Janeiro (RJ). É o Mapa do Mercado de Trabalho no Brasil - no. 1, um estudo preparado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 1990. São números e gráficos que, tanto quanto a fome, envergonham o país e justificam a nova cruzada proposta por Betinho. "Não queremos escandalizar ninguém, mas mostrar a cara do Brasil", disse Betinho, que criou para a nova campanha o lema "Comida contra a fome, trabalho contra a miséria". Queremos caminhar para o emprego e a distribuição de renda e de terras,
78603 ao invés de usar o dinheiro público para beneficiar empreiteiras em
78603 grandes obras, afirmou Betinho, que estabeleceu como meta ""trabalho digno para toda a população dentro de um ano". Segundo o Mapa, dos 64 milhões de pessoas que compõem a População Economicamente Ativa (PEA) do país, apenas 40 milhões têm emprego. Há uma legião de cinco milhões de brasileiros que trabalha mas não tem rendimento nenhum. Apenas 27 milhões têm carteira de trabalho assinada. E, ainda, há discriminação salarial de sexo e cor, além do descumprimento da Constituição, com 14% das crianças entre 10 e 13 anos trabalhando-- são 1,9 milhão de crianças. De acordo com os dados, 44 milhões (71%) dos brasileiros que trabalham ganham menos de cinco salários-mínimos e apenas 5,2 milhões (8,4%) ganham mais de 10. Os 10% mais ricos do país concentram 48,1% da renda nacional. Os 10% mais pobres ficam com 0,8%. No Estado do Ceará, por exemplo, 44,7% ganham abaixo do piso constitucional de um salário-mínimo. O rendimento médio no país é de 4,1 salários, mas no Piauí a renda média é de 1,7 salário. De acordo com o Mapa, o Brasil possui 62,1 milhões de trabalhadores, responsáveis pela geração de riquezas avaliadas em US$450 bilhões-- previsão do Produto Interno Bruto (PIB) de 1993. Desse total de trabalhadores, 13% cumprem jornada integral por menos de um salário- mínimo e 31 milhões não contribuem com a Previdência Social. O país tem um contingente de 2,29 milhões de desempregados. O Brasil tem 20 milhões de subtrabalhadores, ou seja, brasileiros que não têm emprego, trabalham sem receber ou ganham menos que o salário-mínimo. Betinho lembra que o total de 20 milhões de subtrabalhadores permite projetar "70 a 80 milhões de pobres, dos quais uma parcela vive na mais absoluta indigência". Nos dados do IBGE, atualizados mensalmente desde 1990, ficam evidentes os desequilíbrios no mercado de trabalho brasileiro. A remuneração do trabalho feminino representou apenas 57% do recebido pelos homens. Os trabalhadores brancos recebiam uma média de 5,3 salários-mínimos por mês, em comparação com os 2,5 salários-mínimos para os trabalhadores negros ou pardos. Em praticamente todos os estados, o negro ou pardo ganha cerca da metade do salário médio do branco. A maior desigualdade racial está no Piauí, onde a proporção chega a três por um. Mesmo sem levar em conta a cor da pele, a mulher (2,8 salários) ganha muito menos do que o homem (4,9). A pior remuneração do trabalho feminino está no Nordeste (1,6 mínimo). O homem nordestino ganha, em média, 2,6 mínimos. No Sudeste, a mulher ganha cerca de 3,4 salários. O homem, 6,1. O trabalho infantil é outro indicador das desigualdades. No Nordeste, 19,1% das crianças entre 10 e 13 anos trabalham (no Piauí, 28,4%). No Sudeste, o índice é de 9,4%. O Distrito Federal tem a menor taxa (4,2%). Se não chega a ser um paraíso para 58% de seus moradores, que ganham menos de cinco salários, Brasília aparece como ilha de excelência. Enquanto a renda média do Sudeste é de 5,1 salários e a do Nordeste, 2,2, o Distrito Federal bate o recorde, com oito salários, superior à de São Paulo (6,1), o estado mais rico da Federação. Um homem branco em Brasília ganha, em média, 12,2 salários-mínimos por mês. A mulher negra ou parda no Maranhão e no Piauí tem rendimento médio de 0,9 salário. O Mapa do IBGE revela ainda que, na área urbana, a parcela da população ocupada com salário abaixo do mínimo determinado por lei alcançou 15%. Na área rural, chega a 43,1%. Durante o lançamento do Mapa, Betinho disse que é necessário um acordo urgente entre empresários e centrais sindicais para resolver o problema do desemprego. "Os empresários argumentam que sem reduzir os encargos sociais não é possível aumentar o número de empregos. Ao mesmo tempo, as centrais sindicais afirmam que diminuir os encargos sociais somente teria como resultado mais lucros para os empresários", afirmou (JB) (GM) (FSP) (O ESP) (JC) (O Globo) (O Dia).