Não é apenas a escassez de chuva que faz uma área tornar-se um deserto. Entre as várias causas do processo de desertificação, estão dois fatores que aparentemente nada têm a ver com o problema: a distribuição da terra e o modelo de desenvolvimento. O que ocorre nas áreas em processo de desertificação no sertão nordestino é um exemplo disso. De acordo com Sílvio Santana, coordenador técnico da Fundação Esquel Brasil, organização não-governamental que promove, em Fortaleza (CE), a Conferência Nacional e o Seminário Latino-Americano da Desertificação (Conslad), a distribuição da terra e o modelo de desenvolvimento no interior do Nordeste mudou nos últimos 30 anos. Em consequ"ência, as secas e o processo de desertificação se intensificaram. Santana explica que, até a década de 60, o sertão tinha um modelo de convivência em que campos abertos eram compartilhados por todos. O sertanejo cultivava sua roça de subsistência em volta de casa e criava os animais em grandes áreas comuns. "A partir dos anos 60, o capitalismo começou a se impor. Os grandes proprietários cercaram suas áreas e os pequenos tiveram de fazer o mesmo", disse. Com a chegada da cerca ao sertão, vieram a superexploração da terra e a degradação do meio ambiente. "Sem espaço para criar seus animais soltos, nem para variar as áreas de cultivo, dando descanso a um pedaço enquanto plantava em outro, o pequeno proprietário tem de superexplorar sua terra", diz Santana. O modelo antigo, explica ele, permitia a sobrevivência do sertanejo. Hoje, só quem suporta a seca são os donos de grandes áreas ou de terras irrigadas (JB).