EUA ACUSAM O BRASIL DE "SELVAGERIA"

Negligência e "selvageria" foram os termos usados pelos EUA para denunciar, mais uma vez, a situação de pobreza e o assassinato de crianças no Brasil. Diante de um plenário lotado de diplomatas de quase 100 países, que participam da reunião anual da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em Nova Iorque, a representante norte-americana Vivian Derryck causou sobressaltos entre os diplomatas brasileiros ao dizer que "no Brasil, meninos de rua andam pelo lixo procurando comida e às vezes são caçados por esporte". Fugindo da linguagem diplomática habitual da ONU, a delegada norte- americana comparou a situação da criança no Brasil com o Sudão, um dos países mais miseráveis da África, onde, segundo ela, "a guerra arrancou das crianças tudo o que tinham, deixando-as abandonadas e nuas no meio das ruas". "Essa negligência está muito perto da selvageria para ser chamada de qualquer outra coisa", acrescentou. Para derrubar o argumento mais usado pelo Brasil e outros países pobres-- o de que os países ricos devem cooperar mais para o desenvolvimento dos países pobres--, os EUA citaram exemplos de bons cuidados com crianças na Mongólia e em Sri Lanka como "prova de que uma nação não precisa ser rica para tomar conta de suas crianças". A delegada norte-americana reconheceu, porém, que os EUA não são exceção. "Vinte por cento das crianças americanas estão abaixo da linha da pobreza", disse. Surpreendida pelas críticas da delegação norte-americana, a delegação brasileira fez em seguida um discurso morno, preparado de véspera, no qual reivindicou da comunidade internacional mais empenho para oferecer cooperação técnica e outras formas de assistência aos países que necessitam de ajuda. Duas páginas do discurso discorreram sobre os casos de sucesso do governo brasileiro, desde a erradicação da poliomielite "em três anos" até a campanha contra a fome idealizada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (O Globo).