MENINAS CARENTES SÃO TEMA DE CAMPANHA COM APOIO DO UNICEF

Ofendidas, agredidas e humilhadas. Este é o perfil das meninas de baixa renda no Brasil traçado pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP) e pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência), na campanha "Miss Brasil 2000 - Prêmio nenhum vale tanta dor", que será lançada hoje, Dia Internacional da Mulher, em todo o país. A exemplo do que ocorreu em 1988, com as primeiras denúncias sobre a atuação de grupos de extermínio na Baixada Fluminense, a campanha tem tudo para ganhar as páginas da imprensa internacional e novamente arranhar a imagem do Brasil no exterior, já desgastada por chacinas e massacres. Um dos relatórios que a partir de hoje será enviado a entidades de direitos humanos do Brasil e do exterior revela que o número de assassinato de meninas já representa 21% de todos os homicídios de menores registrados no ano passado. Em alguns estados, como Minas Gerais, as meninas já são maioria (52%) entre a população de zero a 17 anos, vítima de assassinatos, de acordo com o CEAP. "A menina carente é uma vítima invisível da ausência de políticas públicas voltadas para a sexualidade, violência, saúde, educação e mercado de trabalho", definiu Ivanir dos Santos, secretário-executivo do CEAP. O CEAP estima em seis milhões por ano o número de meninas vítimas de violência sexual e em três milhões o total de menores grávidas em todo o país. São 16 milhões de brasileiras de até 17 anos que vivem em famílias com renda mensal de meio salário-mínimo, e 500 mil meninas vivem da prostituição infantil. "É preciso evitar que este seja o perfil da menina ano 2000", diz Ivanir. No Rio de Janeiro, a campanha vai cobrar do governo estadual a retomada do projeto Casa das Meninas, o único programa oficial existente no Brasil para lidar com meninas carentes. Enquanto funcionou, o projeto ofereceu abrigo, assistência médica e psicológica e treinamento profissional para mais de 100 jovens. Hoje, restam apenas três casas vazias. Os organizadores também pretendem brigar pela instalação dos conselhos tutelares-- órgãos instituídos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente para cuidar dos problemas da população dessa faixa etária e que, na prática, nunca funcionaram. "Em conjunto com outras entidades não- governamentais, entramos com uma representação junto ao Ministério Público contra o fechamento das casas. O projeto tem que ser retomado", afirmou Ivanir. Cada estado usará o tema da campanha de forma diferente. No Nordeste, por exemplo, será dada ênfase à questão do turismo sexual. Em Minas Gerais, os organizadores pretendem se debruçar sobre o extermínio de menores. O UNICEF apoiou financeiramente a primeira parte da campanha, com um patrocínio de US$20 mil (cerca de CR$14 milhões) (O ESP) (O Globo).