PRECISA-SE DE EMPREGO

No próximo dia 10, o articulador nacional da campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, inicia uma nova cruzada nacional, desta vez contra o desemprego no Brasil. Segunda etapa da tentativa de extinguir a miséria no país, a luta pelo pleno emprego conta, por enquanto, apenas com o entusiasmo do sociólogo e seu prestígio junto a todos os segmentos da população. Tenho certeza de que a aceitação desta fase será ainda melhor do que a
78499 da primeira. Antes era uma coisa nova e desconhecida; hoje leva a marca de
78499 algo que deu certo. Estou mais confiante, mais seguro. O que aconteceu foi
78499 um fenômeno de massas que não surpreendeu apenas o país: eu mesmo não
78499 esperava tanta repercussão, confessa Betinho. Embora não haja um balanço da quantidade de alimentos arrecadados até hoje, a corrente de solidariedade idealizada por Betinho mostrou ao país novas formas de ação que não dependem unicamente do governo. Seu êxito é confirmado pelos números. Em janeiro o IBOPE revelou que 93% da população consideraram a campanha necessária e que 87% dos que participaram não pertenciam a nenhum comitê. Para a segunda etapa, será mantida a mesma estrutura de grupos autônomos, reunidos pela própria sociedade. Fazemos questão de que nada seja centralizado, diz Betinho. Ele conta com o engajamento da sociedade, do governo e de empresários. "Se precisar procurar os empresários para conseguir novos empregos, procurarei. Faço tudo pela campanha", afirma. O otimismo é mesmo a palavra-chave para entender como Betinho reúne forças para seguir adiante. Outra explicação é a gravidade do problema brasileiro. Também no próximo dia 10, serão apresentados ao país os resultados de uma pesquisa sobre o mercado de trabalho, elaborada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dados são dramáticos. Exemplo: das 62 milhões de pessoas ocupadas-- para uma população economicamente ativa de cerca de 64 milhões-- apenas 40 milhões estão efetivamente empregadas. Pior: a aspiração de 18 milhões de trabalhadores é ter carteira de trabalho assinada. Os técnicos do IBGE que visitaram 88 mil unidades residenciais para desenvolver a pesquisa constataram ainda que oito milhões de brasileiros cumprem uma jornada de trabalho superior a 40 horas semanais. Por incrível que pareça, são estes mesmos oito milhões que recebem, no fim do mês, um salário abaixo do mínimo estabelecido por lei (CR$42.829,00 em março). A campanha pelo emprego não restringe participações. A questão do desemprego sobrepõe a ideologias. O empresário Emerson Kapaz, coordenador-geral do Pensamento Nacional das Bases Empresariais (PNBE), acredita que, quando o emprego é visto como prioridade, as empresas encontram soluções alternativas às demissões. "Pode-se jogar com férias coletivas, revezamento de horários, redução da jornada e de salários, reprogramação de turnos. O mais importante desta etapa é encarar o emprego como prioritário", opina Kapaz. Ele defende um modelo de recuperação econômica que inclui maior participação do salário na renda nacional (JB-revista Domingo).