ONU DIZ QUE BRASIL VIRA FABRICANTE DE COCAINA

O Brasil deixou de ser apenas mercado consumidor de droga para se transformar num dos principais centros de fabricação de cloridato de cocaína, o produto final, juntamente com Peru e a Bolívia. Além de base para a manufatura da cocaína, o Brasil, a Argentina e o Chile formam hoje as mais importantes rotas internacionais da droga, cujo tráfico começa a partir dos dois maiores produtores de folha de coca do mundo, o Peru e a Bolívia. Os dados constam do mais amplo estudo sobre o tráfico e o consumo internacional de droga, que será lançado hoje em Viena, na Áustria, pela Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com o relatório, a droga deixou de ser uma questão meramente penal e social, invadindo as esferas da política internacional e da economia mundial. A elevação dos níveis de produção pode ser medida pelas apreensões feitas no Brasil do entorpecente mais consumido, a maconha: em 1992, a polícia apreendeu 19,6 toneladas do tóxico. No ano anterior foram 8,5 toneladas, ou seja, menos da metade. A questão que mais preocupa as autoridades mundiais diz respeito à crescente internacionalização e cooperação entre os diferentes cartéis da droga, grupos políticos subversivos e traficantes de armas, numa mistura explosiva que "está aumentando o poder econômico e a influência política dessas organizações criminosas". O número crescente de prisões de africanos-- sobretudo nigerianos-- no Brasil, operando como "mulas" (transportadores), é apenas a ponta dessa grande organização multinacional associada. Na África, vem diminuindo o número de prisões de traficantes, demonstrando que eles estão se especializando, enquanto na Europa, o principal mercado depois dos EUA, são cada vez maiores os comunicados de países denunciando a ação desses cartéis e as transações de drogas em seus territórios. O principal mercado do mundo, os EUA, está enfrentando um grave problema, segundo o documento da ONU. Embora tenha sido registrada uma leve redução no número de consumidores de drogas identificados, de 12,6 milhões de pessoas em 1991 para 11,4 milhões em 1992, houve aumento de 7% no número de casos de urgências médicas. Isso é atribuído à maior pureza da droga, refinada em laboratórios mais sofisticados em países como o Brasil, ao aumento da potência (com o desenvolvimento de plantas de coca e canabis mais resistentes) e a métodos mais rigorosos de ingestão. As ações desenvolvidas pelos governos dos países produtores de drogas em conjunto com organismos internacionais de repressão, como o Drug Enforcement Agency (Dea), dos EUA, estão empurrando os cartéis para outros países, em especial o Brasil. Segundo o relatório da ONU, vem crescendo no país, principalmente na Amazônia, o cultivo da cocaína e de seu similar, o epadu. A morte do chefão do cartel de Medellín, Pablo Escobar, intensificou o esforço de internacionalização dos cartéis. Na Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína, as medidas de repressão resultaram no desmantelamento de 224 laboratórios clandestinos em 1992, e 109 nos primeiros quatro meses de 1993. O relatório da ONU destaca que os governos da América do Sul precisam controlar melhor o tráfico de substâncias químicas usadas no processo de produção de drogas, como o éter. "É preciso aplicar melhores medidas de controle, sobretudo em nações como o Brasil e o Chile, países de origem ou de trânsito de grandes quantidades de produtos químicos utilizados na fabricação da pasta de coca e do cloridato de cocaína", destaca o relatório (O ESP).