UNESCO DIZ QUE APARTHEID CIENTÍFICO DIVIDE O PLANETA

Denunciando o apartheid científico que ainda mantém o planeta dividido em nações de distintas categorias, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) lança hoje o primeiro "Relatório Mundial sobre a Ciência", a ser publicado a cada dois anos. O documento, de 278 páginas, reúne estatísticas e artigos de 26 cientistas de várias nacionalidades para ressaltar que o crescimento econômico durante o próximo século terá como um de seus fatores mais importantes a capacitação científica e tecnológica. Capacitação essa hoje concentrada nos poucos países ricos, responsáveis por 80% das pesquisas em andamento. Enquanto isso, segundo o relatório, obstáculos como pobreza, analfabetismo, valores culturais, telecomunicações deficientes e relacionamento não satisfatório entre universidade e indústria atrasam o desenvolvimento nos países pobres. O documento aponta a cooperação científica internacional como uma das soluções para diminuir as diferenças. O relatório afirma ainda que o modelo adotado pelos Tigres Asiáticos (Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura), que investiram significativas percentagens de seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa voltada para aplicações imediatas, pode servir ao Terceiro Mundo. Ressalta ainda que, devido ao caos econômico e político, a Rússia e outros países da Comunidade dos Estados Independentes correm o risco de dar um passo atrás em relação à ciência. A América Latina não aparece muito bem no ranking das regiões mundiais que mais investem em ciência. Segundo o relatório da UNESCO, os países latino-americanos destinam apenas 0,4% do PIB para pesquisas, empatando com as nações do Oriente Médio (sem contar Israel) e ficando na frente apenas das nações muçulmanas e negras da África e das mais atrasadas da Ásia. Mesmo assim, o documento ressalta o potencial científico do Brasil, esclarecendo que o país fez importantes investimentos nas décadas de 60 e 70 e que é o único na região a os ter aumentado na de 90. "Mas a inflação e a dívida externa comprometeram os resultados dessas pesquisas, muitas delas de nível internacional", diz o documento. O Brasil aparece no relatório com 65 mil pesquisadores, que publicam 3.735 trabalhos por ano: líder isolado de toda a América Latina e o Caribe. Mas, se for levada em conta a relação com o tamanho da população, o Brasil fica atrás de Cuba, Uruguai, Argentina e Costa Rica em números de cientistas e em sexto lugar em volume de trabalhos científicos publicados (O Globo).