A Argentina e o Brasil, os principais sócios do MERCOSUL, que também reúne Paraguai e Uruguai, caminham a passos rápidos para a formação de uma zona de livre comércio a ser inaugurada em menos de um ano, em janeiro de 1995. O processo de integração parece, agora, irreversível, e os dois governos começam a delinear a próxima etapa, mais complicada, para formar um mercado comum de fato. A implantação da zona de livre comércio, em janeiro de 1995, quando os quatro países poderão intercambiar produtos sem pagar tarifas alfandegárias, ainda é vista com reservas por alguns segmentos do setor privado. A Unión Industrial Argentina (UIA), porta-voz de cerca de 90% da capacidade industrial instalada no país, chegou a propor a implantação da zona de livre comércio para janeiro de 1997. O governo não aceitou e a entidade prepara-se para orientar seus associados a se defenderem do que considerarem concorrência desleal por parte dos produtos brasileiros. No setor agrícola, o presidente da Sociedad Rural Argentina, Eduardo A. C. de Zavalía, também prepara propostas para atenuar o impacto das importações brasileiras, a partir do próximo ano. Ele sugere a fixação de cotas, durante dois ou três anos, para importação de açúcar, carne de frango e de porco, por exemplo. As diferenças na política econômica dos dois países, porém, são um empecilho à integração. A Argentina, desde 1991, está aplicando um rigoroso programa de ajuste econômico. O Brasil, que nos últimos quatro anos já teve seis ministros da Economia, ainda não conseguiu aplicar um plano para combater a inflação e voltar a crescer de forma ordenada. A expansão dos negócios em determinados setores também depende da vontade política dos dois governos. No Brasil, a manutenção do monopólio estatal no setor de telecomunicações é considerada um inibidor importante para maior integração de empresas brasileiras e argentinas. De qualquer maneira, a relação entre Argentina e Brasil nunca foi tão estreita e a tendência é de aprofundamento desse intercâmbio com a expansão dos negócios nos dois países. O avanço da integração no âmbito do MERCOSUL depende em grande parte da harmonização na condução das políticas econômicas por parte de seus governos. Mas isso, talvez, não chega a atrapalhar o dia-a-dia dos negócios de maneira tão intensa como a burocracia na fronteira, considerada pelos empresários a inimiga número um do MERCOSUL. Uruguaiana (RS), que faz divisa com a Argentina na cidade de Paso de Los Libres, concentra a maior parte dos problemas. Nesse ponto da fronteira circulam 70% da carga intercambiada entre o Brasil e a Argentina e para fugir dos trâmites burocráticos, das filas imensas de caminhões e das greves dos fiscais da Receita Federal, empresas começam a planejar instalar unidades industriais no mercado importador. A Argentina manteve-se, no ano passado, como segundo maior importador dos produtos brasileiros, perdendo posição apenas para os EUA, que compraram, em 1993, US$7,8 bilhões do Brasil. As exportações brasileiras para a Argentina somaram US$3,66 bilhões, com um crescimento de 20,45% sobre os US$3,03 bilhões exportados no ano anterior. Com isso, a Argentina garantiu uma participação de 9,4% no total das exportações do país em 1993, que alcançou US$38,78 bilhões. A Argentina registrou em 1993 alta de 7,4% de inflação-- o nível mais baixo dos últimos 38 anos. Quando o presidente Carlos Menem assumiu, em 1989, a inflação anual era de 4.923,6%. O mercado de capitais na Argentina, pouco expressivo até 1991, vem registrando volume crescente de negócios, atraindo recursos de investidores estrangeiros e, em especial, dinheiro que por muitos anos os argentinos deixaram em bancos no exterior. No ano passado, cerca de US$9 bilhões ingressaram no mercado de capitais argentino. A indústria automobilística é um dos setores que mais têm crescido na Argentina, desde a implantação do plano de ajuste econômico do presidente Menem, em 1991. A produção de veículos, que em 1990 era de 97 mil unidades, cresceu cerca de 300%, para 370 mil, no ano passado (GM).