SUCESSÃO AMEAÇA O PLANO ECONÔMICO

As articulações iniciais da sucessão presidencial foram o principal obstáculo que, nos dois últimos dias, bloqueou a votação do plano econômico do governo no Congresso Nacional. As ambições cresceram no rastro de uma possível candidatura do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, à Presidência da República. No próximo dia oito haverá nova tentativa de aprovar o plano antes do recesso informal que os parlamentares impõem na semana que antecede o Carnaval, tornando imprevisíveis as consequências do choque entre o ministro da Fazenda e o Congresso. Ao problema sucessório, somam-se os interesses pessoais dos parlamentares e as situações políticas regionais que dificultam a atuação já deficiente das lideranças do governo. A elevação da temperatura política ontem, em Brasília (DF), provocou boatos de que era iminente o afastamento do ministro da Fazenda. Mas ele jogou água na fervura e garantiu que não era momento de demitir-se porque em sua avaliação "ainda há espaço para uma ação construtiva". No próximo dia sete, Fernando Henrique Cardoso, em cadeia nacional de rádio e televisão, falará por 12 minutos sobre a situação econômica do país. Ontem mesmo, após uma reunião com o presidente Itamar Franco, o ministro fez pontaria contra o alvo mais visível à sua frente e disparou: "O choque é do Congresso com o país". Os impasses trancaram a revisão constitucional, que só aprovou a permissão ao Congresso para convocar funcionários do segundo escalão do governo para depor. A votação da emenda que cria o Fundo Social de Emergência (FSE) ficou para o dia oito. O governo queria que ela fosse esta semana. O ministro da Fazenda também defendeu a convocação de uma assembléia constituinte revisora como alternativa para o caso de o país mergulhar no impasse político, o que impediria a aprovação do plano econômico. Em dois ou três meses, segundo ele, a assembléia seria eleita e entraria em funcionamento, passando a cuidar apenas da reforma da Constituição. Cardoso disse que a falta de decisão do Congresso esgotou não só seu limite de ministro como também a paciência do país. Ele deixou dúvidas quanto à possibilidade de sair do cargo caso não seja aprovado o FSE. Afirmou que não tomará decisão que prejudique o governo, mas ressaltou que nenhum ministro é insubstituível. O assessor especial do Ministério do Planejamento, Edmar Bacha, admitiu, porém, que a equipe econômica deixará o governo caso o Congresso não aprove o plano de combate à inflação. As negociações estão tirando o ânimo dos técnicos, que se sentem "cozinhados com requintes de perversidade" pelos parlamentares. Fernando Henrique Cardoso considerou, ainda, Infâmias" as especulações em torno de sua candidatura à Presidência. "Já disse um milhão de vezes que sou candidato apenas a ajudar a resolver os problemas do país", afirmou (JB) (FSP) (O ESP).